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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Workshop aborda mudanças no uso do solo para bioenergia


Evento promovido pelo CTBE examinou avanços científicos e reuniu olhares sobre esse tema da agenda internacional de sustentabilidade dos biocombustíveis, considerando emissões de gases de efeito estufa.

A expansão sustentável da produção de etanol exige avaliações precisas sobre as mudanças no uso do solo em áreas que passam a ser ocupadas para a geração de bioenergia. Já se sabe, por exemplo, que quando a cana-de-açúcar substitui culturas agrícolas anuais como a soja, o impacto na emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE) oriunda da alteração do tipo de vegetação é relativamente neutro. Mas quando ela ocupa áreas de culturas perenes, como café e laranja, as emissões crescem. No caso de florestas nativas o aumento é ainda maior. Já o plantio de cana sobre áreas de pastagens degradadas, ao contrário, resulta em balanço favorável de emissões de GEE.

Entretanto, muitas incertezas ainda rondam as pesquisas sobre o tema. Tais questões e avanços científicos foram abordados no Workshop on Quantifying and Managing Land Use Effects of Bioenergy, promovido pelo Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), em Campinas, entre os dias 19 e 23 de setembro.

Um dos aspectos mais controversos segundo os participantes do evento são as mudanças indiretas no uso da terra (ILUC, na sigla em inglês). Estas ocorrem quando uma cultura agrícola voltada à produção de bioenergia entra em uma região onde antes havia, por exemplo, pastagem para a criação de gado. Como a demanda pela carne produzida naquele solo continua a existir, há um deslocamento da produção de bovinos para outra região ou país, gerando uma cadeia de efeitos que poderá resultar em desmatamento de florestas nativas e emissões de GEE em alguma parte do mundo. Estudos sobre esse complexo fenômeno econômico e ambiental ganharam destaque na agenda internacional de sustentabilidade em bioenergia quando agências governamentais dos EUA e da União Européia incluíram modelos matemáticos ligados ao tema em avaliações sobre a sustentabilidade dos biocombustíveis.

Helena Chum, brasileira que atualmente trabalha no National Renewable Energy Laboratory (NREL), parceiro do CTBE, explica que os modelos iniciais utilizados pelas agências internacionais careciam de maior sofisticação para reproduzir a realidade de forma adequada. "No caso Brasil, o território foi modelado como tendo apenas florestas nativas e terras agriculturáveis. Não foi incluída na análise a grande quantidade de pastagens degradadas existentes, o que gerou o resultado absurdo de cerca de 0,8 hectare de desmatamento na Amazônia para cada hectare usado para produzir etanol de cana", contou Chum.

Para os pesquisadores presentes ao Workshop do CTBE, os modelos matemáticos atuais estão mais robustos, mas ainda necessitam aprimoramento para mensurar adequadamente tamanha complexidade presente no ILUC. "O modelo ideal para ILUC teria que contemplar exatamente a distribuição do uso da terra no mundo de, pelo menos, cinco anos para cá e teria de considerar o manejo do solo em cada região, se houve rotação de cultura ou não, como se deu o plantio e a colheita do material, etc.", explica Chum.

O Brasil possui um modelo próprio para mensurar as mudanças no uso da terra para bioenergia, o Brazilian Land Use Model (BLUM), desenvolvido pelo Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (ICONE) e que está sendo aperfeiçoado com o apoio do CTBE. "Colocaremos um profissional no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para contribuir com a aceleração do processo de aquisição e interpretação de imagens de satélite sobre mudança no uso da terra, com vistas a melhorar a modelagem do BLUM", disse o diretor de sustentabilidade do CTBE, Arnaldo Walter.

Novas frentes de estudo - O Workshop promovido pelo CTBE também sediou reuniões periódicas de três grupos de estudos da IEA (International Energy Agency) Bioenergy. Concluiu-se que a bioenergia é apenas um dentre os inúmeros fatores sociais e econômicos que causam as mudanças no uso da terra e que análises eficientes deveriam compreender tais alterações como eventos localizados regionalmente e dentro de condições socioeconômicas específicas.

O debate sobre as mudanças no uso do solo para a bioenergia também possui outras vertentes a serem exploradas: um modelo matemático apresentado por Klaus Peter Zulka, da Environment Agency Austria, mostrou que terras agriculturáveis convertidas em produção de biocombustíveis na Áustria tiveram sua riqueza de espécies reduzida de 3 a 14%, dependendo do grupo de organismos analisados.

Já outra pesquisa da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), apresentada por Holger Matthey, mostrou que a pressão por terra para alimentos vai continuar a crescer na próxima década, principalmente por conta do aumento da população mundial e do crescimento econômico de países populosos como Brasil, China, Índia e Rússia (BRICS) que permanecerá na casa de 5% por ano, enquanto o resto do mundo cresce a 2%. No caso dos biocombustíveis, a FAO pressupõe que o etanol de cana-de-açúcar é o que mais vai ser expandido na próxima década, já que a produção de etanol de milho norte-americana, por conta de um mandato do País, não ultrapassará 15 bilhões de galões por ano até 2022.

Fonte: Ascom CNPEM/ABTLuS

sábado, 11 de junho de 2011

São Paulo terá núcleo de pesquisa em bioenergia e sustentabilidade


Proposta reúne especialistas da USP, Unesp e Unicamp.

Reunir especialistas das três universidades públicas de São Paulo - USP, Unesp e Unicamp -, para realizar pesquisas e formar especialistas focados na geração de energia a partir de biomassa, é a principal proposta do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Bioenergia e Sustentabilidade (NAPBS), lançado no último dia 3 na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba.

O anúncio feito pelo reitor da USP, João Grandino Rodas, fez parte da cerimônia de comemoração dos 110 anos da Esalq e teve a presença do pró-reitor de Pesquisa da USP, Marco Antônio Zago, do vice-reitor administrativo da universidade, Antônio Roque Dechen, do diretor da Esalq, José Vicente Caixeta Filho, do presidente da comissão de pesquisas da Esalq, José Lehmann Coutinho, e do diretor administrativo da Fapesp, Joaquim José de Camargo Engler, além de representantes do governo estadual e de institutos de pesquisa como a Embrapa e o Instituto Agronômico.

O novo núcleo, ainda sem sede definida, tem por objetivo estimular e articular pesquisas sobre biomassa e tecnologias de transformação em biocombustíveis, além de promover e integrar o conhecimento gerado. De acordo com Dechen, coordenador-geral do núcleo, a principal meta do NAPBS é a implantação de um programa de pós-graduação interuniversidades em bioenergia e sustentabilidade.

Com o aporte de R$ 20 milhões do governo estadual para infraestrutura e o apoio da Fapesp para projetos de pesquisa, estão envolvidos na fase inicial do NAPBS pesquisadores da Esalq, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura, do Instituto de Física de São Carlos, do Instituto de Química, do Instituto de Biociências, do Instituto de Ciências Biológicas, da Escola Politécnica, das unidades de Ribeirão Preto e da Escola de Engenharia de Lorena, todas unidades da USP. "O foco será na energia, mas voltada à sustentabilidade", disse Dechen.

Esses grupos de pesquisa atuam em áreas que vão desde a agricultura e genética de plantas a impactos socioeconômicos e ambientais, sendo o núcleo estruturado em seis eixos principais. "Muito se fez e muito se fará pela pesquisa com a implantação desse núcleo", afirmou o professor.

Os eixos são: Produção de Biomassa, Genômica Funcional, Transformação da Biomassa em Biocombustíveis, Morfologia e Composição de Biomassa, Processos Industriais e Sustentabilidade.

Na cerimônia, Caixeta Filho anunciou a construção de um centro de convenções em um local próximo ao campus de Piracicaba, com recursos da USP. O empreendimento, cuja área total envolve 216 mil m², será dividido em três blocos. Terá um teatro principal com capacidade para mil pessoas e dois espaços de 2.700 m² cada, destinado a eventos.

Segundo Caixeta, o novo centro de convenções servirá tanto à universidade como à comunidade. "É um polo a mais para que a USP possa estreitar laços locais e regionais", disse.

A ideia do espaço visa também economizar e facilitar a logística de seminários e outros eventos. De acordo com as estatísticas da USP, a cada dois dias um evento de extensão é realizado no campus de Piracicaba.

Fonte: Agência Fapesp

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Pesquisa de ponta facilita adaptação em áreas secas

Projetos bem-sucedidos são apresentados em painel da Segunda Conferência Internacional sobre Clima, Sustentabilidade e Desenvolvimento em Regiões Semiáridas (Icid+18), que vai até sexta-feira, dia 20, em Fortaleza (CE)

Aplicações de pesquisa de ponta em bioenergia, biotecnologia molecular, tecnologia da informação e comunicação e em nanotecnologia podem facilitar a adaptação sustentável das populações em regiões secas. "A união de conhecimento tradicional e ciência de ponta foi demonstrada em experiências e oportunidades concretas", afirmou a presidenta do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Lucia Melo, sobre os trabalhos do painel da Icid+18 coordenado por ela na manhã desta terça-feira, dia 17.

O aprofundamento das iniciativas apresentadas, no entanto, esbarra em algumas barreiras, como a insuficiência da formação de recursos humanos para pesquisa, a baixa capacitação técnica dos produtores rurais das regiões secas e a falta de infraestrutura de pesquisa.

Por isso, a cooperação internacional entre centros de pesquisas de países emergentes e os investimentos em educação foram pontos que saíram como propostas concretas do painel a serem apresentados para a redação final da Declaração de Fortaleza II, documento síntese que será aprovado pela Icid+18 na sexta-feira.

Reforçar, na declaração, a importância das ações para a formação de recursos humanos no semiárido foi proposta de Aldo Malavasi, diretor presidente da Biofábrica Moscamed Brasil e secretário-geral da SBPC.

"No Brasil, estamos muito voltados para a costa. Temos que formar mestres e doutores nas regiões secas do Brasil, África e Ásia", propôs Malavasi, que deu palestra sobre a biofábrica, organização social vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e instalada no sertão da Bahia, no Vale do São Francisco. A fábrica desenvolve moscas estéreis, para controlar uma das principais pragas a afetar a fruticultura no Nordeste, a mosca-da-fruta.

Já a proposta de incrementar a cooperação internacional entre centros de pesquisa dos países emergentes foi feita por Mohamed Hassan, integrante do Conselho da Academia de Ciências do Mundo em Desenvolvimento (Twas). Hassan citou instituições especializadas em estudos sobre as regiões áridas no Brasil, Índia, China, Oriente Médio, entre outros locais. Ele ofereceu exemplos de aplicações bem-sucedidas de alta tecnologia em regiões secas, como o controle de doenças em camelos no Deserto do Saara, na África, e a coleta de água a partir de neblina no Deserto de Atacama, no Chile.

Hassan citou ainda aplicabilidades para tecnologias de ponta nas regiões áridas, como monitoramento ambiental, tecnologia da informação (que possibilita o acesso a informações e à educação a distância), biotecnologia (elaboração de variedades de vegetais resistentes à seca) e nanotecnologia (na purificação da água e no desenvolvimento de células mais eficientes para captar energia solar).

(Vinicius Neder, do Jornal da Ciência)