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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Biomassa incerta


Tema foi debatido no Workshop do Programa Fapesp de Pesquisa em 
Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), na semana passada, em São Paulo.

"As estimativas anuais de áreas desmatadas em florestas tropicais são precisas e altamente confiáveis - pelo menos no Brasil. Mas a utilização desses dados para avaliar as emissões de carbono provenientes de mudanças de uso do solo traz grandes incertezas, principalmente porque o mapeamento da biomassa das florestas é precário."

A avaliação foi feita por Shaun Quegan, diretor do Centro de Dinâmica do Carbono Terrestre e professor do departamento de Matemática Aplicada da Universidade de Sheffield (Reino Unido), na abertura do Workshop do Programa Fapesp de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais, na quarta-feira (11).

O evento de dois dias se destinou aos coordenadores, pesquisadores principais, colaboradores e estudantes dos 17 projetos em andamento do PFPMCG e teve ainda a participação de coordenadores e equipes dos projetos de pesquisa dos programas Biota-Fapesp e Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia (Bioen).

Quegan explicou que fazer estimativas das emissões produzidas por mudanças do uso da terra é uma tarefa extremamente difícil, especialmente porque não existem mapas consistentes de biomassa das florestas. Em sua apresentação, ele comparou sete diferentes mapas produzidos por grupos de pesquisa distintos.

"Os mapas são tão diferentes que é impossível pensar até mesmo em uma estimativa em termos de médias. Comparando esses sete mapas de biomassa da Amazônia, que mostram a maneira como a biomassa está distribuída no espaço, efetivamente constatamos que a correlação é zero. Temos a impressão de olhar para algo completamente aleatório", disse à Agência Fapesp.

Segundo ele, sem mapas mais precisos é impossível avaliar com exatidão as emissões causadas por mudanças no uso da terra e compreender integralmente os fluxos de carbono responsáveis pelo aquecimento global e por outras mudanças climáticas.

"As fontes das emissões continuam sendo um grande problema para a ciência. A biomassa representa o material na árvore, que vai parar em algum lugar quando a floresta é substituída. No que diz respeito ao clima, a questão é que uma parte significativa desse material vai parar na atmosfera", disse.

Sem saber quanta biomassa é perdida com a queima de uma determinada área de floresta, só obtemos estimativas muito pobres sobre qual é a quantidade de carbono que vai para a atmosfera.

"Se não conhecemos essa quantidade, não sabemos o quanto precisamos reduzir de emissões. Em segundo lugar, sem essas estimativas, não podemos avaliar qual é o teto para permitir mudanças no uso da terra, em termos de área. Saber estimar a biomassa é importante tanto economicamente como cientificamente", afirmou.

De acordo com Quegan, as tecnologias com base no espaço são importantes para realizar essas estimativas. "Trabalhamos para desenvolver tecnologias de base espacial para realizar as medidas reduzindo esses erros nas estimativas. Temos técnicas já bastante desenvolvidas, com uso de satélites, que têm o objetivo de fornecer mapas de biomassa que sejam globais, imparciais e em escala de metros", afirmou.

Para que os dados sejam aplicáveis na ciência do clima, além das técnicas de estimativa de biomassa, há necessidade também de desenvolver sistemas de satélites capazes de estimar o desmatamento. Segundo Quegan, o Brasil é uma exceção positiva em relação a esses sistemas.

"Nos países onde há florestas tropicais, o Brasil é a única exceção. O país é o único que possui infraestrutura para medir os dados e fazer os cálculos. A razão para isso é que há mais de 20 anos o país tem sistemas avançados para monitorar o que ocorre na Amazônia", disse.

Os sistemas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), segundo Quegan, são um exemplo para todo o mundo. "São os mais ambiciosos e importantes programas existentes para monitorar a superfície terrestre em todo o mundo. Outra coisa realmente admirável é que esses dados estão disponíveis gratuitamente na internet. Isso é extraordinário e exemplar", destacou.

Programa integrado - A abertura do workshop foi conduzida pelo diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, e pelo presidente da coordenação do PFPMCG, Reynaldo Luiz Victoria. De acordo com Brito Cruz, trata-se do primeiro workshop realizado desde que foram contratados os projetos da primeira rodada do programa. O objetivo, segundo ele, é criar oportunidades para uma boa integração entre os vários projetos de pesquisa que compõem o PFPMCG.

"Essa integração é justamente o que justifica a existência de um programa. O workshop, portanto, não é um fato acessório da atividade de pesquisa. É uma atividade essencial das mais importantes, que vai nos ajudar a ter um programa integrado, estabelecendo o diálogo entre os responsáveis por cada projeto. A ciência só avança em ambientes onde há debate e discussão", afirmou Brito Cruz.

O PFPMCG foi organizado pela Fapesp a partir de uma proposta da comunidade científica. O objetivo é que o programa tenha duração mínima de dez anos. Os projetos avulsos, segundo Brito Cruz, ainda são bem-vindos. "Os novos projetos relacionados com mudanças climáticas que são submetidos ajudam a indicar quais temas poderão ser contemplados em futuras chamadas do programa", disse.

Há ainda projetos avulsos que podem ser incorporados ao programa. Foi o que ocorreu com o projeto que permitiu, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), adquirir o supercomputador Tupã, em uso no Inpe para desenvolver novos modelos climáticos. Outro exemplo é a aquisição do novo navio oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP).

Victoria destacou que o PFPMCG envolve não só pesquisadores, mas alunos e pós-doutorandos e que, a partir de agora, os workshops serão realizados pelo menos uma vez por ano.

"Os alunos e pós-doutorandos são importantes para a sinergia do programa, pois estão efetivamente com a mão na massa. Queremos que esse sinergismo nos ajude a detectar novos rumos a tomar, além de indicar possíveis falhas e limitações, revelando novas frentes que poderão ser atacadas em chamadas posteriores", afirmou.

Fonte: Agência Fapesp

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Fonte alternativa atenuará gasto com térmica


O aumento da capacidade de geração de energia elétrica por fontes alternativas - biomassa, eólica e Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) - e a antecipação do início da operação da usina de Santo Antônio, no rio Madeira, para dezembro de 2011, devem diminuir em R$ 4 bilhões o gasto com geração térmica no país até 2019.

A economia representa uma redução de 7,8% contra um cenário sem as fontes alternativas, segundo levantamento da consultoria Excelência Energética com base no Plano Decenal de Expansão de Energia 2019, da Empresa Pesquisa Energética (EPE). Isso porque, diferente das térmicas, essas usinas não requerem compra de combustível.

"Quando as usinas termelétricas são chamadas a operar, o gasto com combustível leva o preço da energia para patamares de R$ 600 o megawatt/hora, muito acima do preço das demais fontes, como a eólica, que foi vendida a R$ 130", diz Erik Rego, diretor da Excelência Energética.

Apesar dessa economia, o gasto com energia termelétrica continuará subindo, com um crescimento médio de 5% ao ano. De 2010 a 2019, o estudo estima que devem ser gastos R$ 49 bilhões com a operação de térmicas. Sem as fontes alternativas, a despesa seria de R$ 53 bilhões.

Em dez anos, a geração de energia térmica deve crescer 100%, o que vai representar um aumento de participação na oferta total do sistema de 4,6% para 6,4%. O plano decenal de energia, ainda em consulta pública, prevê que a entrada de novas usinas a gás encerra em 2014, e a óleo, em 2013. A geração de energia elétrica por fontes alternativas crescerá 146% até 2019, com sua representatividade no sistema passando de 8% para 13%. A hídrica, por sua vez, cresce apenas 41% no período, e tem sua participação reduzida de 84% para 78%.

O movimento já era esperado, pois com a construção de usinas hidrelétricas a fio d'água (sem reservatórios), a tendência é haver maior necessidade de acionamento de outras fontes principalmente no período seco do ano (de maio a outubro).

O impacto sobre o custo da geração de energia térmica começará em 2012, com queda de 12%, reflexo da antecipação da usina hidrelétrica de Santo Antônio, com geração de 2.140 megawatts (MW) médios.

A partir de 2013, a queda se acentua para um patamar de 20% com a entrada das fontes alternativas contratadas nos últimos leilões realizados em agosto. São 1159 megawatts (MW) médios de energia gerada a partir de PCHs, eólicas e biomassa a entrar no sistema a partir de 2013, gerados por 70 centrais eólicas, 12 termelétricas à biomassa e 7 (PCHs), um investimento de R$ 9,7 bilhões.

A redução no custo de geração térmica, porém, não deve representar alívio para os consumidores. A previsão, segundo Erik Rego, diretor da Excelência Energética, é de que o custo para o consumidor atendido pelas distribuidoras cresça entre 25% a 30% acima da inflação até 2015.

De 2015 a 2019, sem a perspectiva de entrada em operação de novas termelétricas, a expectativa é de que o custo fique estável. "Essa evolução não considera o valor dos investimentos, o que significa que o impacto sobre as tarifas deve ser ainda maior", diz Rego.

Para Maurício Tolmasquim, presidente da EPE, o uso das térmicas não deve ser visto como algo negativo. "A energia termelétrica faz parte do nosso sistema elétrico. Se ela é mais cara na geração, por conta do gasto com combustível, as demais têm os gastos com o investimento, que também influencia na tarifa", diz ele.

Segundo o planejamento da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a participação das hidrelétricas na capacidade instalada do sistema elétrica passará dos atuais 74% para 70% em 2019. O peso das térmicas por sua vez, crescerá de 14% em 2010 para 15% em 2019. A diferença é preenchida pelas fontes alternativas - de 10% para 13%, sendo que a nuclear permanece com 2% de representatividade.

Paulo Pedrosa, presidente da Abrace, entidade que representa os grandes consumidores de energia, diz que o que interessa para a indústria é ver o preço final do insumo, o que envolve não só o custo da geração. "Além do combustível, temos o custo da transmissão, com a geração de energia em locais distantes, a venda de energia hidrelétrica mais barata no leilão sustentada por um preço maior no mercado livre ", diz o dirigente. Segundo ele, o setor está preocupado com o aumento de custo.

Flávio Neiva, presidente da Abrage, associação dos geradores de energia, critica a opção do governo em investir em usinas sem reservatórios. Segundo ele, essa escolha significa a redução da garantia fixa das hidrelétricas e a necessidade maior de uso de fontes mais caras. "Utilizar reservatórios traz vantagens como enfrentar períodos de hidrologia desfavorável e aproveitar outros usos, como o turismo", diz. (Samantha Maia)

Fonte: Valor Econômico

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Aneel garante novo leilão de fontes alternativas em 2011

O governo vai colocar de vez as fontes alternativas de energia elétrica no calendário regular de leilões realizados no país. Segundo o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Nelson Hübner, está garantida a realização de um novo leilão de fontes alternativas para 2011.

"O Brasil busca uma matriz energética cada vez mais limpa. Neste ano, conseguimos contemplar todas as fontes alternativas sem incluir uma térmica, o que é um avanço para o país", disse Hübner ao Valor. "Com certeza teremos mais um leilão de fontes alternativas no ano que vem."

O posicionamento da Aneel é um sinal verde para os investidores do setor. Os empresários veem na regularidade dos leilões a garantia básica para tocar novos investimentos. "Em 2009, nós passamos praticamente em branco, sem leilões dedicados à biomassa. Isso desarticula toda a indústria", diz Zilmar José de Souza, assessor de bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). "Com mais leilões, os empresários têm segurança para investir e buscar linhas de financiamento."

Para os dois leilões de fontes alternativas que acontecem nesta quarta e quinta-feira, foram habilitados um total de 366 usinas para o leilão de reserva e 368 para o leilão de A-3, o qual prevê o início do fornecimento de energia em 2013. Os contratos de reserva têm duração de 15 anos, enquanto o leilão de A-3 prevê fornecimento por 20 anos.

Na avaliação da Unica, o número de empreendimentos de biomassa (bagaço de cana, resíduos de madeira e capim elefante) habilitados para participação da disputa - 40 para o leilão de reserva e 33 para o leilão de A-3 - foi satisfatório, mas poderia ter sido bem maior se considerado o potencial não explorado das usinas de etanol e de açúcar em operação.

Hoje, há 434 usinas desse setor instaladas no país, mas apenas 100 delas têm estrutura preparada para vender a terceiros a energia excedente que produzem. "Isso significa que só 22% dessas usinas exportam energia", afirma Souza.

O maior desafio das usinas adaptadas para gerar energia (as chamadas "retrofits"), entretanto, está em sua capacidade de atualizar a estrutura existente para gerar e vender energia, já que boa parte delas nasceu como fabricante exclusivo de açúcar e etanol.

Segundo a Unica, muitas vezes os investimentos dessa transição - que passa por aquisições de caldeiras e montagem dos pontos de conexão até as redes de distribuição e de transmissão de energia - podem não se justificar, dado o preço-teto estipulado para os leilões. Estima-se que a montagem dessa estrutura representa aproximadamente 30% do investimento total para a cogeração de energia.

O valor definido para o leilão de reserva desta semana é de R$ 156/MWh, e de R$ 167/MWh para o leilão A-3. Segundo a Unica, o preço-teto para o leilão de reserva, em valores atualizados, representa 90% do praticado em 2008.

Um conjunto de medidas que incentive a entrada de mais usinas de etanol e açúcar no fornecimento de energia elétrica está em análise constante no Ministério de Minas e Energia (MME), diz Hamilton Moss de Souza, diretor da Secretaria de Política Energética do ministério.

Em paralelo à realização dos leilões, Moss de Souza afirma que o ministério avalia a possibilidade de mudanças na modicidade tarifária praticada em chamadas públicas feitas por distribuidoras. "Mantemos um diálogo aberto com o setor e temos buscado melhorias, mas é preciso olhar para todas as fontes alternativas, não apenas biomassa."

Segundo Roberto Meira Junior, coordenador-geral de fontes alternativas do ministério, as usinas de biomassa têm crescido rapidamente e a tendência é que, no longo prazo, deixem de ser enxergadas como fonte alternativa de energia. "Elas já são uma alternativa competitiva e tendem a brigar com as hidrelétricas, que são a principal fonte do país", afirmou.

Os projetos habilitados para o leilão de reserva desta semana somam 10.745 megawatts (MW) de potência instalada, sendo 8.202 de eólica, 2.375 de biomassa e 168 de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), com início de operação no mês de setembro de 2011. Para o leilão de A-3, são 10.415 MW, e o prazo inicial para entrega de energia é janeiro de 2013.

Até o ano passado, a bioeletricidade sucroenergética - produzida a partir do bagaço e da palha da cana - respondia por 3% da matriz elétrica do país, segundo a Unica. Entre 2015 e 2016, estima-se que o potencial desse setor eleve a participação para 11%, chegando a 8.158 MW médios. Entre 2018 e 2019, esse setor pode atingir a capacidade da usina de Itaipu.

A defesa pelas fontes alternativas não prevê exatamente uma competição com as hidrelétricas, mas um complemento à matriz energética do país. O objetivo é que os períodos de baixa nos reservatórios das hidrelétricas sejam compensados com a safra da cana na região Sudeste e os ventos fortes do Nordeste e do Sul.


Fonte: Valor Econômico