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terça-feira, 6 de setembro de 2011

Observatório no sertão nordestino rastreia asteroides ameaçadores


Equipe do projeto Impacton, coordenado pelo Observatório Nacional, apresenta seus primeiros resultados científicos em reunião da Sociedade Astronômica 
Brasileira (SAB).

A gestação de um bebê dura nove meses, mas a de um telescópio capaz de rastrear asteroides - pelo menos no Brasil - consumiu nada menos que nove anos. "A boa notícia é que finalmente o Impacton é uma realidade", afirmou Daniela Lazzaro, coordenadora científica do projeto e pesquisadora do Observatório Nacional, em conferência realizada na 36ª Reunião Anual da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), em Águas de Lindóia (SP).

Durante a apresentação, Lazzaro apresentou os primeiros resultados científicos da chamada Iniciativa de Mapeamento e Pesquisa de Asteroides nas Cercanias da Terra no Observatório Nacional - nome que corresponde à sigla Impacton. Alguns asteroides já foram rastreados, inclusive um (2011 GP59) que passou a meros 525 mil km da Terra (menos de duas vezes a distância até a Lua), em abril de 2011. "O bichinho andava numa velocidade muito grande, foi um ótimo teste para nós", revelou a astrônoma.

Mas a alegria pelos primeiros resultados científicos se misturou durante a apresentação à angústia gerada pelos entraves impostos pela legislação brasileira à conclusão do projeto. "As dificuldades estão menos ligadas à quantidade de recursos, e mais à falta de flexibilidade para sua utilização", disse Teresinha Rodrigues, pesquisadora do ON que ficou encarregada da infraestrutura do projeto e apresentou o lado administrativo do Impacton, na mesma conferência.

A instalação - O observatório, que conta com um telescópio com espelho de um metro de diâmetro, foi construído em Itacuruba (interior de Pernambuco), uma cidade com cerca de quatro mil habitantes que oferecia as melhores condições climáticas para os cientistas, com média de 280 a 300 dias sem chuva por ano.

Embora a localização fosse propícia à pesquisa, o isolamento dificultava a empreitada - poucas empresas se mostravam interessadas em executar trabalhos elementares, como a construção de um muro, em razão da falta de acesso ao local. Para complicar ainda mais, a legislação ainda exigia a realização de licitação para todo e qualquer investimento, por mais simples que fosse. É um processo que consome muito tempo, por vezes sem chegar ao resultado desejado, e o projeto vai ficando mais caro - com a necessidade de manter gastos operacionais e de manutenção por mais tempo.

Resultado: uma ideia nascida em 2002 só foi concluída em 2011, principalmente por entraves burocráticos. "É uma questão que a gente deseja deixar para reflexão", disse Rodrigues.

Acompanhamento - O foco do projeto Impacton e seu observatório dedicado, o Observatório Astronômico do Sertão de Itaparica (OASI), não é encontrar novos objetos que estejam em órbitas próximas à da Terra - ofertando, portanto, risco de colisão -, mas sim acompanhar aqueles que foram recém-descobertos por outras equipes.

"Tem muita gente descobrindo novos objetos, mas uma coisa que pouco se diz é que 70% de todos os asteroides descobertos pelos diversos projetos de busca são imediatamente perdidos", revela Lazzaro. "É feita uma estimativa rápida da órbita, conclui-se que ele não vai colidir no futuro próximo com a Terra e eles são abandonados. Acontece que essa órbita determinada às pressas tem muita imprecisão."

A ideia é não deixar isso acontecer, pegando o trabalho do ponto em que outros grupos deixaram. Com isso, espera-se criar uma base de dados robusta sobre os NEOs (Objetos Próximos à Terra, em inglês) que permita saber onde eles realmente estão e quais são suas características.

Embora a maior parte dos asteroides próximos à Terra com mais de um km já esteja devidamente catalogada, a população de objetos de menor porte - com mais de 140 m de diâmetro, capazes de grande devastação, embora não representem o fim da civilização - ainda é vastamente desconhecida. Cerca de cinco mil foram observados, de estimados 100 mil.

Até agora, o pessoal do ON realizou seis missões ao OASI, entre março e agosto, para observação e caracterização de asteroides. Mas a melhor notícia veio na semana passada, quando, pela primeira vez, os cientistas conseguiram controlar o telescópio remotamente, pela internet, sem sair do Rio de Janeiro. Com a automação, a tendência é que o número de observações aumente bastante nos próximos meses. E a equipe já trabalha na análise dos dados já coletados para a preparação de artigos científicos para publicação.

Mais informações sobre o Impacton: www.on.br/impacton.

Fonte: Ascom da SAB

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Brasil freia namoro com observatório da União Europeia

O governo brasileiro deve enviar, no início desta semana, uma carta ao diretor-geral do ESO (Observatório Europeu do Sul), Tim de Zeeuw, dizendo que não aceita os termos negociados para a entrada do Brasil na instituição.

"Estou acabando de dar polimento a uma carta comunicando que, nessas condições, nós não vamos entrar", disse à Folha o ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende. "Não estamos fechando nenhuma porta, mas os custos não são aceitáveis."

Os termos recusados foram negociados entre o ESO e uma comissão brasileira composta por dois astrônomos e um diplomata. Eles previam um investimento de 132 milhões de euros como taxa de entrada no consórcio, parcelados em dez anos, e uma anuidade de 13,6 milhões de euros, calculada com base no PIB brasileiro - como é a praxe na organização europeia.

Na prática, seriam R$ 60 milhões anuais. "Para que você tenha uma ideia, o maior investimento de cooperação internacional feito pelo Brasil é o pagamento que fazemos à ONU, que é de R$ 90 milhões."

Euforia sigilosa

A perspectiva de se unir ao ESO já animava parte da comunidade astronômica brasileira desde a visita de Rezende ao Chile, em fevereiro. Na semana passada, durante evento em Passa Quatro (MG), Albert Bruch, diretor do LNA (Laboratório Nacional de Astrofísica) e membro da comissão de negociação, falou a cerca de 300 astrônomos sugerindo que eles se apressassem a apresentar projetos de observação nas instalações do ESO no Chile.

Bruch disse que os termos finais do acordo já haviam sido encaminhados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia para a aprovação do presidente Lula. Mas acrescentou que nada poderia revelar sobre a proposta finalizada, por estar "sob sigilo".

Alguns astrônomos encaram a ideia de se unir ao ESO com desconfiança. "Trata-se de uma opção péssima", afirma João Steiner, astrônomo do IAG (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas) da USP. "A astronomia brasileira já teve um investimento de US$ 30 milhões nos últimos 20 anos, que nos deu uma capacidade científica invejável. O gasto com o ESO será de 15 a 20 vezes maior, sem que estejamos preparados para isso."

Um dos pontos criticados é o fato de que ser membro da ESO não garante uso das instalações. Cada projeto precisa ser aprovado por uma comissão internacional.
(Salvador Nogueira)

Fonte: Folha de SP