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terça-feira, 22 de novembro de 2011

Etanol desembarca na Antártica


A Estação Antártica Comandante Ferraz vai substituir o diesel mineral por etanol hidratado na produção de eletricidade. A Petrobras fornecerá os 350 mil litros de álcool e validará seu uso em baixíssimas temperaturas. Se correr como o esperado, o Brasil será o primeiro país a gerar energia com biocombustível na Antártica. O gerador a etanol é produzido pela VSE, sociedade entre a Vale Mineradora e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que elaborou a tecnologia para que motores pesados possam gerar energia limpa, usando etanol sem aditivo.

De acordo com o diretor de etanol da Petrobras Biocombustível, Ricardo Castello Branco, é uma ótima oportunidade para a empresa e para o País demonstrarem sua capacidade tecnológica na área dos biocombustíveis. "A utilização do etanol para a produção de energia nas rigorosas condições climáticas da Antártica abre um novo campo para esse combustível renovável", destaca. Recentemente, a Petrobras realizou outro projeto similar, só que em Juiz de Fora, cuja usina termelétrica passou de operar com gás para funcionar também com etanol.

A Petrobras é parceira da Marinha há quase três décadas e desde a criação do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), em 1982, a empresa fornece combustíveis, atua na revitalização da estação e vem desenvolvendo um acordo de cooperação com foco na utilização de uma matriz energética mais limpa naquele continente. O Proantar tem entre suas prioridades garantir a qualidade ambiental das operações do Brasil na Antártica.

Controle por internet e tanque antivazamento - Por sua parte, a VSE produziu o gerador, que pesa 2,2 toneladas e tem capacidade de 250 quilowatts, volume suficiente para abastecer toda a estação de pesquisa. O sistema inclui um sofisticado equipamento de controle e comando via satélite e por internet. Após a montagem do equipamento, terá início um programa científico de avaliação para assegurar que todos os requisitos de segurança operacional estejam adequados às rigorosas condições impostas pelo clima antártico.

Os funcionários da Marinha receberam um treinamento no Centro de Desenvolvimento de Produtos da VSE, em São José dos Campos, e serão orientados na prática na Estação Antártica Comandante Ferraz para operar e executar a manutenção do motogerador. Por se tratar de uma manutenção simples, apenas uma pessoa é suficiente para fazê-la na Estação.

O contra-almirante Marcos José de Carvalho Ferreira, secretário da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM), ressalta que o regime de operação prevê o funcionamento durante o período de um ano que coincidirá com a OPERANTAR XXX, - Brazilian Antarctic Program Planning (de novembro de 2011 a novembro de 2012). Ele lembra que outras estações no continente gelado já funcionam com energia limpa, mas que a Estação Comandante Ferraz será a primeira ter o etanol como gerador de energia.

Ferreira dá detalhes do projeto: "A VSE desenvolveu um projeto de tanque para estocagem e transporte de etanol adequado às condições de transporte no H-44 Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel, da Marinha do Brasil, e às condições e restrições de desembarque na Estação". Segundo o contra-almirante, são quatro tanques de 10.000 litros cada, especialmente desenvolvidos para a parceria. São construídos com aço carbono e têm o interior revestido com tinta apropriada para o etanol.

"São providos de um casco cilíndrico, encapsulado em uma bacia de contenção, que não permite vazamentos para o exterior. Sua estrutura permite que seja transportado por içamento ou arraste, pois sua base é provida de esqui", detalha. Estes tanques já levaram os primeiros quarenta mil litros de etanol no convés do navio antártico Ary Rongel no início do mês.

Sobre o risco de que o combustível se congele, Ferreira lembra que o ponto de congelamento do etanol é bastante baixo. "A VSE assegura que não haverá esse problema, uma vez que já testou o motor em câmara fria, mas isto é uma das coisas que desejamos constatar", explica. Por sua vez, a VSE informa que a temperatura de congelamento do etanol é de aproximadamente -124°C e na Antártica e a temperatura ambiente média é de -36°C, o que eliminaria o risco. A empresa desenvolveu também um sistema de aquecimento para o funcionamento adequado do motor nessas condições.

Para o presidente da VSE, James Pessoa, "é um privilégio ter desenvolvido uma tecnologia totalmente brasileira que permite viabilizar a utilização do mesmo etanol que abastece nossos carros sem quaisquer aditivos para a geração de energia limpa na Antártica. A Vale e o BNDES constituíram a VSE para que o Brasil possa desenvolver tecnologias próprias em geração de energia e sistemas de potência", destaca. A VSE também construiu geradores para a Amazonas Energia, da Eletrobras, para produzir energia elétrica na Amazônia de forma mais limpa e reduzir a utilização de diesel na região.

Impacto internacional - "É algo inovativo, vai ser a primeira vez que será feito na Antártica. E é mais uma maneira de reduzir o impacto ambiental no continente", opina o glaciologista Jefferson Simões, professor da UFRGS e líder da Expedição Criosfera, que vai levar pela primeira vez um módulo de pesquisa atmosférica brasileiro ao interior do continente. Simões acredita que a ação terá um impacto positivo entre as comunidades internacionais, como o Comitê de Proteção Ambiental do Tratado da Antártica (Committee for Environmental Protection, CEP).

"Uma ação dessas está dentro da linha que se está recomendando (aos países que estão na Antártica) e mostra a iniciativa do Brasil", completa. Porém, o cientista acredita que o impacto será menor em organizações como o SCAR (Scientific Committee on Antartical Ressearch), "que não está tão interessado diretamente na questão da preservação ambiental da Antártica".

O projeto é beneficiado pela Lei da Inovação, por meio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que promove e incentiva o desenvolvimento de produtos e processos inovadores voltados para atividades de pesquisa.

Em 2012, se comemorarão 30 anos do Proantar e da presença brasileira na Antártica e a intenção é de que o etanol abasteça a cerimônia que será realizada. A Estação Antártica Comandante Ferraz, operada pela Marinha do Brasil, foi instalada na Baía do Almirantado, localizada na Ilha Rei George, no verão de 1984. A partir de 1986, passou a ser ocupada anualmente e guarnecida por militares da Marinha do Brasil e pesquisadores, podendo acomodar 30 pesquisadores, além do pessoal de apoio e manutenção. A estação possui laboratórios destinados às ciências biológicas, atmosféricas e químicas.(Clarissa Vasconcellos)

Fonte: Jornal da Ciência

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Marinha quer se aproximar das empresas


Comissão Interministerial desafia setor produtivo a investir em recursos do mar
Considerando a riqueza e o valor político-estratégico dos recursos do mar, o contra-almirante Marcos José de Carvalho Ferreira defendeu na última quinta-feira (29/7) na 62ª Reunião Anual da SBPC, em Natal (RN), um maior envolvimento e comprometimento do setor produtivo nesta área.
 
Além de investimentos em pesquisa, o coordenador da Comissão Interministerial de Recursos do Mar (Cirm) propôs a aproximação das universidades, das empresas e do Governo com as atividades científicas desenvolvidas pelos centros de pesquisa da Marinha. "As empresas preferem manter os pés na terra em vez de ir para o mar, que não é para amadores, oferece riscos, mas que precisam ser enfrentados", advertiu na Conferência "Estudos estratégicos para os recursos do mar".
 
O conferencista apresentou uma síntese das várias atividades científicas e dos dez programas realizados no âmbito da comissão que coordena. Com essa estratégia, pretendeu aproveitar a SBPC para difundir e popularizar a ciência, a tecnologia e a inovação desenvolvidas pela Marinha Brasileira em parceria com universidades, institutos e empresas. "Precisamos divulgar mais e melhor a nossa atuação científica", reconheceu.
 
O contra-almirante reivindicou investimentos à altura da importância estratégica do mar. "A Comissão Interministerial não possui orçamento próprio e há carência de navios de pesquisa e de satélites", revelou. No entanto, deixou claro que a carência de "ferramentas adequadas" para os desafios lançados não tem impedido avanços reais na pesquisa marinha.
 
Ele reconhece que o anúncio do ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, durante a SBPC, de novos editais para contemplar a criação de dois Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) para o mar favorecerá a integração das pesquisas com as universidades. A área contará com R$ 30 milhões para a viabilização de dois INCTs, um abarcando o Norte e Nordeste e o outro cobrindo o Sul e o Sudeste. Ao mesmo tempo em que busca intensificar as parcerias nacionais, inclusive junto ao empresariado, a Marinha aspira ampliar a cooperação internacional, especialmente com o Japão, país que detém liderança nas pesquisas marítimas.
 
Ao fazer a defesa estratégica da prioridade política do mar, o conferencista lembrou que 80% da população brasileira vivem a menos de 200 quilômetros do litoral, produzindo 78% da receita da União e consumindo 85% da energia elétrica. A extensão litorânea é de 7.491 quilômetros e a massa líquida oceânica soma o equivalente a 50% do território nacional.
 
O contra-almirante observou que, gradativamente, a sociedade brasileira está acordando para essa realidade. Ainda ao falar dos investimentos nas pesquisas, referiu-se à camada do pré-sal e argumentou que 90% da produção nacional de petróleo é extraído do mar. "E isso é feito com extrema competência e total segurança, graças aos investimentos que a Petrobras faz em pesquisa", ressaltou.
 
Na opinião do contra-almirante Marcos José de Carvalho Ferreira, a exploração do petróleo do pré-sal ensejará um "grande salto no desenvolvimento econômico e social do país". As reservas, informou, encontram-se todas localizadas dentro das 200 milhas continentais. Significa que a sua exploração está assegurada pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.
 
A mesma convenção, explicou, garante o direito "pleno e soberano" de explorar os recursos naturais do leito e subsolos marinhos, numa extensão de 650 quilômetros a partir da costa para dentro do oceano. A Amazônia Azul responde por 42% do território brasileiro, o que representa 13 milhões de km².
 
O coordenador da Comissão Interministerial de Recursos do Mar aproveitou para divulgar, além do pré-sal, a descoberta de jazidas minerais e uma biodiversidade que poderá contribuir para o tratamento de doenças como o câncer e a Aids. Caso houver interesse, desde que tomadas todas as precauções ambientais, as empresas brasileiras, por exemplo, poderão extrair do mar ouro, diamante, ferro, cobalto, cobre, prata e zinco.
 
De acordo com as pesquisas da Marinha, as algas calcárias poderão ser utilizadas na agricultura, na produção de cosméticos, na suplementação alimentar, no implante ósseo e na nutrição animal.
 
O levantamento e a avaliação do potencial biotecnológico da biodiversidade marinha são coordenados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), em articulação com as universidades. O seu objetivo, salienta o conferencista, é tornar viável o "aproveitamento sustentável dos organismos marinhos", incluindo-se aí o "potencial farmacológico e medicinal". Outras áreas estratégicas de atuação da Marinha são o monitoramento oceanográfico e climatológico. Entre as suas funções, destacou a previsão meteorológica e o monitoramento de fenômenos climáticos externos. Uma das metas é aumentar a capacidade de prevenir secas e inundações.
 
Para acompanhar as demandas científicas e tecnológicas, o conferencista manifestou a necessidade da consolidação e expansão dos grupos de pesquisa e pós-graduação em ciências do mar.
 
"A formação de recursos humanos é uma prioridade da Marinha", enfatizou, informando que atualmente funcionam no país 40 cursos de graduação e 30 de pós-graduação ligados à questão do mar. As parcerias mobilizam universidades, institutos, órgãos governamentais e empresas. É essa relação que a Comissão Interministerial sonha azeitar para tirar os pés do chão para definitivamente ganhar o alto mar.
(Moacir Loth, para a SBPC)