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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

CARTA DE ITACURUBA


Nós, cidadãos, cidadãs e entidades promotoras e participantes da Caravana Antinuclear que percorreu, entre os dias 28 e 31 de outubro de 2011, as cidades de Belém do São Francisco, Floresta, Itacuruba e Jatobá, em Pernambuco, ameaçadas pela possível instalação de uma usina nuclear, ao concluir a Caravana, dirigimo-nos às autoridades e a toda sociedade da região, do Nordeste e do Brasil. Através desta carta compartilhamos o resultado destes dias intensos de intercâmbio, aprendizagem e compromisso. Música, poesia, teatro, feira de ciências, fotos, cartazes, oficinas de desenho com crianças, palestras e debates foram oportunidades de informação farta e segura, que o povo da região soube aproveitar, já que não obtém das autoridades.

Uma conclusão cristalina fica da Caravana: O POVO NÃO QUER USINA NUCLEAR! Suas razões, se já eram suficientes após os desmantelos vividos com a megaobra da Barragem de Itaparica, ficaram ainda mais claras com as informações disponibilizadas pela Caravana. Não precisamos da energia termonuclear, porque ela é suja, perigosa e cara. Sob qualquer ponto de vista – social, ambiental, político, econômico e cultural – ela é insustentável e indefensável. Por que retomá-la neste momento, após o acidente de Fukushima, quando a maioria dos países dela desiste? O Programa Nuclear Brasileiro, até hoje desconhecido da sociedade, tem que ser imediatamente suspenso. Neste sentido, apoiamos a recém lançada Proposta de Emenda Constitucional Antinuclear de Iniciativa Popular.

Temos, como nenhum outro país, muitas e diversificadas fontes de energia: biomassa, solar, eólica, das marés – a serem desenvolvidas com respeito às pessoas e ao meio ambiente.Suspeita-se que a motivação da construção das usinas nucleares no Brasil é a produção bélica, nos levando a repudiá-las ainda mais.

O que a nossa região precisa não é de mais uma megaobra problemática, reavaliada e rejeitada pelas grandes potências mundiais, as mesmas que financiam o programa nuclear no Brasil. Carecemos de investimentos públicos como: educação, saúde, segurança, soberania alimentar e hídrica, economia popular e solidária, convivência com o semiárido, agilidade no processo de identificação e demarcação das terras tradicionais, revitalização do São Francisco, dentre outros. Para isso, contem com nosso apoio e participação. USINA NUCLEAR NÃO!

A hora grave vivida pela humanidade e pelo planeta exige de nós, mesmo ao revés de interesses econômicos, posturas éticas, de responsabilidade mútua pelo Bem-Comum das atuais e futuras gerações. A presença ainda numerosa de povos originários nesta região nos possibilita o resgate de suas tradições culturais, junto com a demarcação de seus territórios, para um diálogo intercultural e afirmação de utopias de “um outro mundo possível”, sem a ameaça nuclear.

Itacuruba, 30 de outubro de 2011

Articulação Antinuclear Brasileira - Articulação Popular São Francisco Vivo (SFVivo) - Articulação e Organização dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME) – Associação Ambientalista da Cidade de Camaragibe/PE - Associação Brasileira dos Estudantes de Engenharia Florestal (ABEEF) - Associcação Brasileira dos Expostos ao Amianto (ABREA) - Associação dos Beneficiários do Projeto Miguel Arraes de Alencar/Petrolândia/PE - Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) – Associação Movimento Paulo Jackson - Ética, Justiça, Cidadania/BA - Caritas NE2 – Centro das Mulheres do Cabo/PE - Centro Cultural Comunitário Direito de Ser/Itacuruba/PE - Coalização Brasileira Contra as Usinas Nucleares - Comissão Pastoral da Terra (CPT) - Comissão Paroquial de Meio Ambiente de Caetité/BA -Comunidades e Povos Indígenas dos Pankará, Pankararu, Tuxá, Pankararé, Atikum, Neopankararé – Comunidades Quilombolas Negros de Gilú, Poço dos Cavalos e Ingazeira/Itacuruba – Comunidade Quilombola Conceição das Crioulas/Salgueiro/PE - Confraria do Rosário (Remanescentes de Quilombo)/Floresta/PE – Confraria dos Romeiros de Floresta/PE - Conselho Indigenista Missionário (CIMI) - Conselho Municipal de Meio Ambiente/Jatobá/PE - Diocese de Floresta – Eco Vida/Cabo/PE - Executiva Nacional dos Estudantes de Veterinária (ENEV) – Executiva Nacional dos Estudantes de Serviço Social (ENESSO) – Federação Nacional dos Estudantes de Direito (FENED), Federação de Órgãos para a Assistência Social de Educação (FASE) - Fórum de Reforma Urbana de Recife/PE (FERU) - Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil (FEAB) - Fundação Heinrich Böell - Greenpeace - Grêmio Estudantil Ação Jovem/Belém do São Francisco/PE – Igrejas Evangélicas de Jatobá/PE – Instituto Bioeste/BA - Instituto Búzios/BA - Grupo Ambientalista da Bahia (Gambá) - Instituto da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA)/Juazeiro/BA – Movimento Ecossocialista de Pernambuco (MESPE) - Movimento Iniciativa Popular Contra Usinas Nucleares - Paróquias de Belém de São Francisco, Floresta, Itacuruba e Jatobá/PE - Prefeitura de Jatobá/PE – Projeto para o Semiárido Tacaratu (PROSA)/PE - Rede Virtual Cidadã pelo Banimento do Amianto para a América Latina - Secretaria de Educação de Jatobá/PE - Secretaria de Cultura de Itacuruba/PE – Secretaria de Educação de Floresta/PE – Serviço Pastoral dos Migrantes no Nordeste (SPM_NE) - Sindicato dos Professores de Floresta/PE – Sindicato dos Químicos de São Paulo/SP - Cooperativa Agropecuária Familiar do Assentamento Angico II (COOPAFITA) / Itacuruba/PE

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

CARAVANA ANTINUCLEAR parte para o Sertão nesta quinta-feira


No período de 28 a 31 de outubro a Caravana Antinuclear estará percorrendo os municípios pernambucanos de Belém do São Francisco, Floresta, Itacuruba e Jatobá. O objetivo é levar para estas cidades sertanejas informações sobre os impactos que ocorrerão com a instalação de uma usina nuclear em Itacuruba. O ônibus conduzindo seus integrantes sairá da frente da Reitoria da UFPE, às 17 horas desta quinta-feira, dia 27. Nele vão embarcar integrantes do MESPE - Movimento Ecossocialista de Pernambuco, do Greenpeace e da Articulação Anti Nuclear Brasileira, acompanhados de professores universitários, jornalistas, artistas e ambientalistas daqui e de outras partes do país, que vieram apoiar essa mobilização.

A Caravana terá atividades integradas como exposições, debates, feira de ciências, apresentação de teatro, cantadores e poetas populares, para ajudar a população a compreender os riscos de uma usina nuclear na região, assim como as possibilidades de gerar energia elétrica a partir do sol, dos ventos, de outras fontes renováveis de energia que não destroem a natureza e nem causam danos às pessoas. “A Caravana Antinuclear espera alertar as populações para os riscos da instalação dessa usina. O governo decidiu e planeja instalar a usina nuclear, mas não faz um diálogo com o povo da região para que ele fique ciente dos riscos, principalmente à saúde e ao meio ambiente. A Caravana vem para cumprir esse papel, para isso organizações locais ajudam a mobilizar o maior número de pessoas”, afirma o coordenador da Caravana, físico e professor Heitor Scalambrini Costa.

A primeira parada será nesta sexta-feira, em Belém do São Francisco, no sábado a Caravana aporta em Floresta, no domingo em Itacuruba, local onde está prevista a instalação da usina. A última cidade a receber os manifestantes antinucleares será Jatobá, com a programação prevista para segunda-feira. Todas as atividades da Caravana serão gratuitas. Associações, sindicatos, igrejas, escolas e várias outras organizações sociais da região estão se mobilizando para participar do evento.

Jornalista/Assessor de Imprensa: Gerson Flávio – 8649.8759 ou 7812.0080

Fonte: enviado por e-mail

domingo, 7 de agosto de 2011



INSENSATA  OPÇÃO


*Heitor Scalambrini Costa


Muito se tem falado e escrito pró e contra a opção do governo Lula/Dilma em reativar o Programa Nuclear, implicando assim na instalação de centrais nucleares no território brasileiro.

Os defensores desta tecnologia, identificados com setores da burocracia estatal, militares, membros da academia, grupos empresariais (empreiteiras e construtores de equipamentos), julgam que o Brasil não deve prescindir desta fonte de energia elétrica para atender a demanda futura, alegam ser vantajosa por ser barata e “limpa” por não emitir gases de efeito estufa. Afirmam não ser possível acompanhar o desenvolvimento científico-tecnológico, caso não se construa usinas nucleares. E por outro lado, minimizam o recente desastre ocorrido no complexo de Fukushima Daiichi, garantindo riscos mínimos, e mesmo a ausência deles, nas instalações brasileiras.

A primeira vista tais argumentos pareceria convincente, e poderiam até confundir os mais neófitos e menos desavisados cidadãos e cidadãs, que desejam o melhor para o país e para sua população. Mas a verdade dos fatos tem revelado que a opção pela energia nuclear atende somente a interesses inconfessáveis de alguns, em detrimento dos interesses da ampla maioria, resultando em mais problemas do que soluções.

É preciso entender de uma vez por todas, a grande vantagem comparativa do Brasil por possuir uma diversidade e abundância de fontes energéticas renováveis que não são encontradas em nenhuma parte do mundo, e que podem pela tecnologia atual, atender as necessidades energéticas atuais e futuras do país. Estas sim, desde que utilizadas de forma sustentável, podem contribuir para uma sociedade descarbonizada.

Afirmar que as usinas nucleares não emitem gases de efeito estufa é uma meia verdade. É certo que quando em funcionamento as usinas núcleo elétricas emitem desprezíveis quantidades destes gases. Mas lembremos que as centrais não funcionam sem o combustível nuclear. E este para ser obtido, passa por etapas e operações que são conhecidas como “ciclo do combustível nuclear”, que vão desde a extração do minério radioativo, sua concentração, enriquecimento, preparação das pastilhas de combustível, seu uso na usina na geração de eletricidade, armazenagem do lixo radioativo produzido e o descomissionamento da usina, depois de atender sua vida útil. Em todas estas etapas e operações a produção de gases de efeito estufa é importante, e a quantidade varia muito em função da metodologia empregada para calcular, de 60 a 400 gCO2/kWh, como relatado por inúmeras publicações científicas. Por si só esta grande variação merece explicações e estudos mais conclusivos.

Relacionar a necessidade de instalação de usinas nucleares no país como sendo fundamental e imprescindível para acompanhar o desenvolvimento científico tecnológico na área nuclear é uma justificativa completamente fantasiosa, irreal e agride o bom senso. Ao invés de investir 10 bilhões de reais na construção de uma única usina, com baixo índice de nacionalização de seus componentes, poderia se construir reatores multi-propósito por 1 bilhão de reais cada unidade. Seriam muito mais úteis ao desenvolvimento e a soberania do país.

Minimizar os riscos das instalações nucleares é um atentado a inteligência de qualquer pessoa. Mesmo não divulgados são freqüentes os vazamentos de materiais radioativos e problemas que ocorrem nos 442 usinas nucleares espalhadas em 29 países. Os desastres mais significativos nos últimos 20 anos, de Thernobyl, Three Mille Island e de Fukushima Daiichi, foram suficientes para alertar o mundo de quão é perigosa e dos riscos à vida que oferecem estas instalações.

E finalmente, os custos da energia elétrica produzida pelas usinas nucleares são mais caros que outras fontes, como a eólica e a hidráulica, e comparados ao das termoelétricas. Além de necessitarem de subsídios públicos, ou seja, repasse de enormes recursos financeiros do tesouro nacional disponibilizados para esta tecnologia; que acabam dificultando que investimentos sejam realizados em outras fontes energéticas como a solar, eólica, biomassa, pequenas centrais hidroelétricas, e no aproveitamento dos recursos energéticos encontrados nos oceanos. É certo também que com as novas regras de segurança impostas pós Fukushima, ainda mais caro ficará o custo da eletricidade nuclear.

Uma pergunta que não quer calar, diz respeito à negativa de muitas seguradoras em cobrir os acidentes nucleares, que em muitos países essa cobertura é atribuída ao Governo Federal. Se as companhias de seguro, especialistas em estimar os perigos de acidentes, não desejam arriscar seu dinheiro, por que se devem obrigar as pessoas a arriscarem suas vidas?

No mínimo é insensata esta opção energética adotada pelo governo brasileiro, que deve ser mais discutida com transparência. Daí estar junto à imensa maioria da população que tem se manifestado contrária a construção de usinas nucleares em território nacional, fortalecendo o coro: Energia nuclear? Não obrigado.

*Professor da Universidade Federal de Pernambuco

Fonte: enviado por e-mail

sábado, 6 de agosto de 2011

Capacidade de produção de eletricidade cresce 53% em dez anos


Após somar 6 mil MW em 2010, Brasil acrescenta outros 2 mil MW no primeiro semestre deste ano

A capacidade instalada das usinas de geração de energia elétrica em operação no País alcançou 115,0 mil megawatts (MW) na última quinta-feira (4), de acordo com dados do Banco de Informações da Geração (BIG) da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Essa potência total é 53% maior do que os 74,8 mil MW instalados até dezembro de 2001.

Só no primeiro semestre de 2011, entraram em operação comercial usinas capazes de somar mais 2 mil MW de energia para o País, depois do crescimento de 6 mil MW em 2010. Está prevista para os próximos anos uma adição de 51,5 mil MW na capacidade de geração do Brasil, proveniente dos 121 empreendimentos atualmente em construção e mais 541 outorgados. Estão em andamento, por exemplo, as hidrelétricas de grande porte de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte, que será a terceira maior do mundo quando concluída.

Além da produção, nesses seis primeiros meses foram concluídas as obras de quatro linhas de Transmissão de Energia Elétrica, segundo relatório do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2). Outras 21 linhas e 19 subestações estão em andamento. O relatório destaca como importantes para o sistema nacional, o início das obras de interligação das usinas do Madeira, que permitirá o escoamento da energia para o resto do País; e também o andamento das obras da interligação Tucuruí-Macapá-Manaus, que integrará o Amazonas e Amapá ao Sistema Interligado Nacional (SIN).

Matriz limpa 

As usinas hidrelétricas respondem por 67,48% da matriz energética brasileira no final de junho. A segunda maior fonte com participação na matriz nacional, no fim do semestre, é a termoelétrica, responsável por 26,52% da capacidade. As Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH) ficam em terceiro, com 3,15%. Outras fontes participantes da matriz são a nuclear (1,74%) e eólica (0,94%). As centrais geradoras de energia (CGH), que são hidrelétricas de menos de 1 MW representam 0,17%, respectivamente.

A evolução desses números pode ser acompanhada pelo sitio da agência.

Potência supera consumo até 2015

Segundo o Operador Nacional do Sistema (ONS), o Brasil vai conviver com uma capacidade de produção de energia maior que o consumo até, no mínimo, 2015. Somente neste ano, o País deverá registrar uma sobra estrutural de energia da ordem de 2,5 mil megawatts (MW) médios, para uma previsão de oferta de 58 MW médios no ano. Para 2015, a ONS prevê uma sobra de 5 mil MW médios, para uma oferta de 71 mil MW médios. As projeções levam em consideração um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) médio de 5% nos próximos cinco anos.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Semana Anti Nuclear acontece em Recife - Pe


Neste mês de agosto ocorre em Recife a Semana Anti Nuclear, organizada pelo Movimento Ecossocialista de Pernambuco (www.mespe2011.ning.com) com o apoio da Fundação Lauro Campos, Fundação Heinrich Böll, Greenpeace, Centro Cultural Correios, Simples Consultoria e Articulação Anti Nuclear Brasileira.
Na quarta-feira dia 10, as 19 horas, no Centro Cultural Correios haverá o lançamento da Revista Ecoss de Pernambuco com o tema “Reflexões sobre Energia Nuclear”, reunindo textos de autores do mundo acadêmico, político e de organizações sociais. Em seguida ocorrerá o debate Pernambuco: Energia Nuclear e Desenvolvimento, tendo com debatedores o professor Claudio Ubiratan Gonçalves (UFPE), o professor Heitor Scalambrini Costa (UFPE/Mespe) e Roberto Malvezzi, conhecido como Gogó, militante social e escritor.
As 19:30 horas, da sexta-feira dia 12 de agosto, no teatro Hermílio Borba Filho (Teatro Apolo) será apresentado o espetáculo Poético Musical de Educação Ambiental Bicho Homem, com textos de literatura de cordel e músicas de Allan Sales e Trupe. Na ocasião será lançado o cordel “Não queremos usina nuclear em Pernambuco, no Nordeste e no Brasil”, de autoria de Allan Sales.
Serviço:Lançamento da Revista Ecos de Pernambuco
Debate Pernambuco: Energia Nuclear e Desenvolvimento
Dia: 10 (quarta-feira)
Mês: agosto de 2011
Hora: 19 horas
Local: Centro Cultural Correios, Av. Marques de Olinda-262 (bairro do Recife)
Fones: 3224-5739/3424-1935
Espetáculo Poético Musical de Educação Ambiental Bicho Homem e
Lançamento do cordel “Não queremos usina nuclear em Pernambuco, no Nordeste e no Brasil”
Dia: 12 (sexta-feira)
Mês: agosto de 2011
Hora: 19:30 horas
Local: Teatro Hermílio Borba Filho (teatro Apolo), Rua do Apolo, 121 (bairro do Recife)
Fone: 3355-3320

Fonte: enviado por e-mail

terça-feira, 28 de junho de 2011

Consequências de Fukushima


Acidente deve causar uma parada nos programas nucleares de vários países, mas não decreta o fim dessa forma de produção de energia, nem no Brasil.

O acidente nuclear na usina de Fukushima, causado por um terremoto seguido de tsunami, que atingiram o Japão no dia 11 de março passado, deve causar uma parada acentuada nos programas nucleares de vários países, mas não decretará o fim dessa forma de produção de energia, nem no Brasil.

A opinião é do engenheiro civil e Ph. D. em Engenharia Nuclear, Odilon Antonio Marcuzzo do Canto, presidente da Secao Latino-Americana da Sociedade Americana de Energia Nuclear (LAS/ANS).

Ele fala sobre o assunto em sua conferência Olhando para o futuro após o acidente de Fukushima, que profere na 63ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que se realiza de 10 a 15 de julho, na Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia (GO).

Marcuzzo do Canto vai discorrer sobre as iniciativas tomadas pelas autoridades japonesas e pelos organismos internacionais competentes e as possíveis consequências para as pessoas e o meio ambiente.

"A partir dessa visão, tentarei esclarecer as consequências que são esperadas para o setor nuclear no Brasil e no mundo", diz. "A intenção é repassar de forma ordenada uma grande quantidade de informações disponíveis em diversas fontes, como jornais especializados, revistas e internet", diz ele, acrescentando que também deverá fazer comentários sobre as conclusões da Conferencia Ministerial sobre Fukushima, realizada de 20 a 24 de junho, em Viena, da qual participou.

Marcuzzo do Canto baseia sua convicção de que o mundo não abandonará de todo a energia nuclear no fato de que muitos países precisam dela. "A demanda de energia mundial vai obrigar algumas nações a continuar com a produção nucleoelétrica, pois é a única fonte com densidade de energia suficiente para atender suas necessidades", explica. "As fontes ditas alternativas como eólica e solar certamente podem desempenhar um papel importante, mas não têm densidade energética capaz de atender grandes demandas."

No caso do Brasil, Marcuzzo do Canto diz que o País tem grandes possibilidades com a biomassa e, portanto, faz sentido imaginar que na matriz energética nacional a energia nuclear nunca terá papel preponderante. Apesar disso, ressalta que ela é importante para o Brasil. "Só existem três países no mundo que têm, ao mesmo tempo, a capacidade tecnológica de desenvolver o ciclo completo do combustível nuclear e reservas consideráveis de urânio", diz. "Esses países são Estados Unidos, Rússia e o nosso. Dessa forma, não faz sentido abrirmos mão de tamanha riqueza."

Há outra razão para que o País não despreze essa forma de energia. "Tecnologia nuclear não se compra, ou se desenvolve internamente ou se abre mão dela", explica. "Portanto, é importante que o Brasil dê continuidade ao seu programa nuclear. O desenvolvimento do projeto do reator multipropósito brasileiro é um passo importante nessa direção. O aumento da capacidade cientifica, tecnológica e industrial no setor nuclear é também fundamental para garantir o Brasil quanto a outras aplicações da energia nuclear, principalmente na indústria e na saúde."

Serviço: A palestra do presidente da LAS/ANS Odilon Antonio Marcuzzo do Canto será no dia 13 de julho, às 12h, no campus Samambaia da Universidade Federal de Goiás (UFG).

A 63ª Reunião Anual da SBPC tem 148 atividades, entre conferências, mesas-redondas, simpósios e encontros, além de 67 minicursos e cinco sessões de pôsteres. Boa parte dessas atividades abordará o tema principal do evento Cerrado: Água, Alimento e Energia. Haverá ainda uma exposição de ciência e tecnologia, entre outras atividades paralelas.

Veja a programação completa em: www.sbpcnet.org.br/goiania/home/

Fonte: Ascom da SBPC

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Morde e assopra nuclear


Heitor Scalambrini Costa*

Após o trágico acidente nuclear na central japonesa de Fukushima com considerável vazamento de material radioativo, o mundo rediscute os projetos de novas usinas nucleares, e o que fazer com as já existentes. No Brasil, o governo federal age no sentido oposto.

Defensores das usinas nucleares se contradizem, apelando que o momento é de cautela, e que governo vai analisar a entrada de projetos de energia nuclear na discussão do Plano Nacional Energético 2035. Ao mesmo tempo defendem a qualquer custo, que o País não abandone os projetos nucleares com o argumento de não ficar defasado desta tecnologia no futuro, e que a construção de Angra 3 vai continuar, sem alteração do seu cronograma.Esta nova posição (estratégia?) pode ser considerada mais moderada, se comparar com as declarações do Ministro de Minas e Energia, que chegou a anunciar publicamente que o País teria dezenas de (cerca de 50) usinas nucleares até 2050.

De fato, ocorre que mensagens estão sendo enviadas à sociedade pelo lobby nuclear, no sentido de apontar certo recuo e bom senso, tendo em vista a grandiosidade e as reais conseqüências do acidente nuclear ocorrido no Japão, com enormes prejuízos econômicos, sociais, ambientais. O objetivo é amenizar e mesmo tentar calar o movimento anti nuclear que se organiza e cresce em todo território nacional, se opondo a instalação de novas usinas, defendendo o fechamento das já existentes e a interrupção da construção de Angra 3.

Enquanto ocorrem estas declarações de técnicos funcionários públicos e representantes da indústria nuclear, permanecem as propostas contidas no Plano Nacional de Energia, e definidas pelo Conselho Nacional de Política Energética, composto por apenas 10 membros. Os dirigentes desse setor continuam priorizando a energia nuclear como fonte energética. Desconsideram todas as potencialidades e vantagens das fontes renováveis de energias abundantes no País, quando não aprovam o Projeto de Lei – PL 630/2003, denominado “Lei das Renováveis”, adormecido nas gavetas do Congresso Nacional. Também pouco se investe na conservação de energia, bastando verificar os orçamentos destinados para o Programa de Conservação de Energia Elétrica (PROCEL) e suas metas pífias.

O discurso oficial atual é para amainar amplos setores da sociedade contrários ao uso da energia nuclear para produção de eletricidade. Enquanto na prática deixa claro que sua política energética prioriza as mega hidroelétricas na região Amazônica, as termoelétricas (com combustíveis fósseis), além das usinas nucleares. Prova cabal desta conduta foi à aprovação pelo BNDES, nos últimos dias de dezembro de 2010, de um financiamento de R$ 6,1 bilhões para a Eletrobrás Termonuclear S/A construir Angra III. Este valor corresponde a 55% do investimento total.

Enquanto o Banco abre “as burras” para o setor nuclear, acaba de divulgar na véspera da festa junina de São João a criação de um fundo de investimento de R$ 150 milhões, voltado exclusivamente a empresas que desenvolvem projetos de tecnologias "limpas" e estão em estágio nascente ou inicial de atividades. Ou seja, uma soma 40 vezes inferior a que foi destinada ao setor nuclear.

Também recentemente (25/05/2011), o Congresso Nacional aprovou a Medida Provisória - MP 517/2010 editada no final do ano passado, nos últimos dias do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que concedeu incentivos fiscais a áreas consideradas estratégicas pelo governo federal, como infra-estrutura, além de tratar de outros assuntos ligados ao setor elétrico.

Um dos assuntos que fez parte do texto da MP foi à criação do Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento de Usinas Nucleares (Renuclear), concedendo isenção de impostos para usinas atômicas. Segundo a Eletrobras Eletronuclear, o regime reduzirá em R$ 700 milhões o custo de Angra 3 - orçada em R$ 9,9 bilhões. Portanto é o Tesouro Nacional, ou seja, nós os cidadãos e cidadãs que pagamos impostos, que continuamos financiando através do BNDES, e da isenção de impostos, a usina nuclear de Angra 3 e o Programa Nuclear.

Logo, a estratégia do governo é clara; enquanto a “poeira radioativa” da catástrofe de Fukushima não assenta, e não sai do foco da mídia nacional e internacional; atua no sentido de realizar um grande esforço de convencimento da população que ele tem cautela quanto aos destinos do projeto nuclear no Brasil. Mas nos bastidores continua priorizando esta tecnologia. Por quê? Sabe lá os motivos. Talvez tenhamos uma resposta perguntando ao “bispo de Itu”, pois os defensores das usinas nucleares continuam “enrolando” a sociedade.

*Professor da Universidade Federal de Pernambuco

Fonte: enviado por e-mail

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O futuro da energia nuclear


Artigo de José Goldemberg publicado no Estado de São Paulo de hoje (16).

Existem tecnologias que resolvem problemas importantes e vieram para ficar. Outras atravessam um "período de ouro", perdem importância ou até desaparecem.

Automóveis, por exemplo, desenvolvidos no início do século 20, mudaram a face da civilização como a conhecemos. E mesmo que as reservas mundiais de petróleo se esgotem, soluções técnicas vão ser encontradas para mantê-los circulando.

Outras tecnologias promissoras enfrentaram problemas e foram abandonadas. Um bom exemplo é o dos zepelins, enormes balões cheios de hidrogênio que abriram caminho para viagens aéreas intercontinentais na década de 1930, época em que a aviação comercial ainda engatinhava. Mas bastou o acidente com o Hindenburg, zepelim alemão que se incendiou em Nova Jersey (EUA), em 1937, para selar o destino dessa tecnologia.

A energia nuclear parece atravessar um desses períodos críticos: ela teve uma "época de ouro" entre 1970 e 1980, quando entraram em funcionamento cerca de 30 novos reatores nucleares por ano. Após o acidente nuclear de Three Mile Island, nos Estados Unidos, em 1979, e em Chernobyl, na Ucrânia, então parte da União Soviética, em 1986, o entusiasmo por essa tecnologia diminuiu muito e desde então apenas dois ou três reatores entraram em funcionamento por ano. Houve uma estagnação da expansão do uso dessa energia.

As causas dessa estagnação são complexas: por um lado, a resistência do público, preocupado com os riscos da energia nuclear; e, por outro, razões mais pragmáticas, como o seu custo elevado. Apesar desses problemas, a produção de energia nuclear não resulta em emissões de gases responsáveis pelo aquecimento da Terra, que é o caso quando se produz energia elétrica com combustíveis fósseis, como carvão ou gás natural. As preocupações com o efeito estufa levaram vários ambientalistas a apoiar uma "renascença nuclear".

Mas eis que acontece o desastre de Fukushima, com gravidade comparável à de Chernobyl, afetando diretamente centenas de milhares de pessoas e espalhando inquietações sobre o efeito da radiação nuclear numa vasta área do Japão e de países vizinhos. O setor nuclear tem tentado minimizar a gravidade do acidente no Japão, atribuindo-o a eventos raríssimos, como um terremoto de alta intensidade seguido por tsunami, que dificilmente ocorreriam em outros locais. Essa é uma estratégia equivocada, que pode satisfazer engenheiros nucleares, mas não os setores mais esclarecidos da população e governos de muitos países.

Reatores nucleares contêm dentro deles uma enorme quantidade de radioatividade e o problema é sempre o de evitar que ela se espalhe, como se verificou em Chernobyl. Sucede que não é preciso um terremoto e um tsunami para que isso aconteça. Bastam falhas mecânicas e erros humanos, como ocorreu em Three Mile Island. Segurança total não existe.

É possível melhorar o desempenho dos reatores e torná-los mais seguros, mas isso acarretará custos mais elevados, o que tornará a energia nuclear ainda menos competitiva do que já é em relação a outras formas de geração de eletricidade. Além disso, a grande maioria dos reatores nucleares atualmente em uso começou a funcionar 30 ou 40 anos atrás e forçosamente eles terão de ser "aposentados" em breve - os de Fukushima funcionam há mais de 40 anos. A redução da vida útil dos reatores diminuirá, certamente, sua competitividade econômica.

Mais ainda, será preciso resolver de vez o problema do armazenamento permanente dos resíduos nucleares, que se arrasta há décadas. Até hoje os elementos combustíveis usados, que são altamente radiativos, são depositados em piscinas situadas ao lado dos reatores - e um dos problemas em Fukushima foi a radioatividade liberada quando o nível da água da piscina baixou. Só nos Estados Unidos existem essas piscinas ao lado dos 104 reatores lá existentes. Em Angra dos Reis a situação é a mesma.

Finalmente, há o problema de quem pagará pelas compensações para a população atingida pelos acidentes nucleares. Os limites fixados pelos governos para cobrir esses danos são atualmente muito baixo se deverão aumentar muito. Como resultado dessas inquietações e incertezas, está em curso uma reavaliação, em grande número de países, sobre o futuro da "renascença nuclear" e da sobrevivência da própria opção do uso de reatores nucleares para a geração de eletricidade. Alguns países já adotaram o que se chama de "estratégia de saída", pela qual novos reatores não serão construídos.

A Bélgica e a Suíça já adotaram essa política, bem como o Chile e a Alemanha. A China suspendeu a autorização para a construção de mais usinas até que seja feito um reestudo completo das suas condições de segurança. Nos Estados Unidos, acaba de ser abandonado o projeto de construção de dois reatores no Estado do Texas, os primeiros a
serem iniciados após mais de 30 nos de moratória nuclear. Outros países, provavelmente, seguirão o mesmo caminho, sobretudo os que dispõem de outras opções mais econômicas e menos perigosas para a geração de energia elétrica.

Esse é, claramente, o caso do Brasil, onde existe um amplo potencial hidrelétrico a explorar, bem como a cogeração de eletricidade nas usinas de açúcar e álcool, e também a energia eólica. A Agência Internacional de Energia Atômica reduziu sua projeção de novos reatores nucleares no mundo para 2035 em 50%. Alguns países, como a França, onde quase 75% da eletricidade têm origem nuclear, e até mesmo o Japão, que não tem muitos recursos naturais, aumentarão o uso do gás, o que, consequentemente, aumentará as emissões de carbono. Haverá, nesse caso, escolhas difíceis.

Mas o aquecimento global ocorrerá num horizonte de tempo longo e prevenir novos acidentes nucleares é uma tarefa urgente.

José Goldemberg é professor da USP.

Fonte: Jornal da Ciência

terça-feira, 3 de maio de 2011

Meio Ambiente realiza nova audiência sobre segurança nuclear


A Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável realiza hoje (3) uma nova audiência pública para discutir a segurança do Programa Nuclear Brasileiro, já tendo debatido o tema no último dia 12 de abril, quando foi apontada a falta de um projeto para conter a radiação nas usinas de Angra (RJ) em caso de acidente severo.

Nesta semana, a comissão espera ouvir representantes da Eletrobrás Termonuclear (Eletronuclear) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que foram convidados para o debate anterior, mas não compareceram. O presidente da comissão, deputado Giovani Cherini (PDT-RS), disse que essa ausência foi um desrespeito aos parlamentares.

"O Ibama teria que confirmar aqui que a energia nuclear não tem licença para funcionar no Brasil", afirmou o deputado. E acrescentou, "Será que a Eletronuclear acredita que está fora da fiscalização desta Casa?"

O debate foi sugerido após o acidente nuclear ocorrido em março na usina de Fukushima, no Japão. Por causa desse acidente, os deputados querem avaliar a situação do Programa Nuclear Brasileiro e a possibilidade de investimento em outras formas de energia.

Preocupação mundial - "O acidente de Fukushima, que pode se repetir em outras centrais nucleares pelo mundo, provoca dúvidas sobre o nível de segurança das usinas nucleares e estimula o debate sobre a necessidade de se usar esse tipo de energia", afirmou Ricardo Tripoli. Ao sugerir a audiência, ele defendeu maiores investimentos em fontes alternativas, como a eólica e a solar.

Hoje, funcionam no País as usinas nucleares de Angra 1 e 2, que juntas têm capacidade de produzir 2.007 MW. A partir de 2015, está previsto o início das operações de Angra 3, que vai gerar 1.405 MW. Além disso, o Plano Nacional de Energia (PNE 2030) aponta para a necessidade de construção de mais quatro usinas nucleares com capacidade de 1.000 MW cada uma, sendo duas no Nordeste e duas no Sudeste. O cronograma da Central Nuclear do Nordeste prevê o início da operação da primeira usina em 2019 e da segunda em 2021.

Custo elevado - O líder do PV, deputado Sarney Filho, afirmou que a construção dessas usinas tem um custo estimado de R$ 30 bilhões. "Esse total de recursos seria suficiente para a implantação de outras fontes de energia para produzir, no mínimo, quatro vezes mais energia", argumentou o deputado, em requerimento apresentado à comissão.

Ele também criticou a falta de uma "solução satisfatória" para o tratamento dos resíduos nucleares, hoje armazenados em locais temporários. "A radioatividade dos resíduos do urânio processado nas centrais é muito elevada, com graves riscos para a saúde pública por muitos anos."

Sarney Filho e o líder do PSDB, deputado Duarte Nogueira, já apresentaram requerimento à Mesa Diretora do Congresso para que seja criada uma comissão mista especial com o objetivo de acompanhar, monitorar e fiscalizar as ações referentes à implantação de usinas nucleares no Brasil.

O tema também deve ser discutido no Plenário, pois uma das MPs que trancam a pauta é a 517/10, que institui o Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento de Usinas Nucleares (Renuclear). Segundo a MP, poderão se beneficiar do regime empresas com projeto aprovado até 31 de dezembro de 2012 para a realização de obras de infraestrutura em geração de energia nuclear.

"As imagens da tragédia no Japão já fizeram vários países anunciarem mudanças na segurança de seus programas nucleares. É fundamental que esta comissão acompanhe os estudos em execução sobre a situação das usinas existentes e também sobre a construção de novas usinas nucleares no Brasil", disse o deputado Mendes Thame.

Convidados - Foram convidados para a audiência o presidente da Eletrobrás, Termonuclear (Eletronuclear), Othon Luiz Pinheiro da Silva; o presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Curt Trennepohl; o presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante; o subprocurador-geral da República e coordenador da 4ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, Mário José Gisi, e o secretário estadual do Meio Ambiente do Rio de Janeiro, Carlos Minc.

A audiência se realiza às 14h, no plenário 8.
(Agência Câmara)

terça-feira, 19 de abril de 2011

O acidente nuclear do Japão expressa a "sede vampiresca por sangue vivo do trabalho"


Artigo* de Frederico L. Romão** enviado ao JC email.

O espectro radioativo envolve em seus tentáculos cancerígenos e mutantes, mais uma vez, grandes populações humanas. Desde o anúncio das explosões ocorridas na central nuclear de Fukushima no Japão, que o mundo acompanha, em meio ao desencontro de informações, o potencial remake da "síndrome da china", desta feita, em preto e branco. E, ora, como ficam os defensores de que a energia nuclear seria fonte limpa e segura?

Segundo a Energy Information Administration/Monthly Energy (2008), de 1975 a 1990, houve um crescimento de 116,7 % no número de usinas nucleares construídas no mundo. Em meados da década de 70 existiam 42 usinas, em 1990 já são 112. Após o desastre nuclear ocorrido em 1986, na cidade de Chernobyl, praticamente cessam as construções de novas usinas.

Entretanto no início da década de 2000, a busca por crescimento econômico, associada à patente constatação do esgotamento ambiental, a partir principalmente dos dados que evidenciaram o aquecimento global, o uso nuclear para produção de energia torna-se fenômeno retumbante entre governos, agências e competentes pesquisadores pelo mundo afora.

Mesmo que nos atenhamos apenas aos argumentos nacionais, é possível tais encontrá-los às escâncaras: "É fonte limpa quando comparada com os combustíveis fósseis, hidroelétricas e/ou carvão"; "não há chances de ocorrer outro acidente como Chernobyl"; "a fiscalização fica a cargo de organismos internacionais idôneos"; "um país e/ou região (Nordeste) pobre não pode prescindir de tamanho investimento".

Esquecem-se os doutos de que não existe fonte de energia absolutamente limpa; menos ainda a energia nuclear, que mesmo não se considerando os seus derivados acidentes, gera lixo que por séculos poderá destruir vida. A impossibilidade científica de acidentes só é possível nas mentes iluministas do século 18; o século 20 sepultou de há muito essa tese.

Acreditar na idoneidade das agências internacionais de energia nuclear é tapar olhos e ouvidos para os gritos e estampidos que ecoam das guerras do Golfo. Se royalties e investimentos das usinas nucleares por si só trouxessem prosperidade, desenvolvimento e também progresso, diversos municípios brasileiros produtores de petróleo não estariam imersos em agressiva miséria. Em verdade, a energia nuclear, desde sempre, tem sido uma questão geopolítica.

É degradante saber da disputa travada por governadores nordestinos em busca do urânio enriquecido para os seus territórios, em nome do que promovem "tour heurístico". Flagrante exemplo é o governo sergipano, financiando tais evoluções obviamente com dinheiro público, para o deleite de empresários, políticos e cientistas, que vão conhecer in loco as usinas nas praias de Angra.

Qual o registrado na recente tragédia no estado do Rio de Janeiro, mais uma vez se adjetiva de "natural" um desastre absolutamente construído e previsível. Como não responsabilizar o homem pelo adensamento populacional, associado à armazenagem e ao processamento de material radioativo em áreas inseridas no círculo de fogo do Pacífico?

Resolver o problema de produção de energia através da construção de usina nuclear traduz-se em mais uma "fuga para frente". A imperiosa exigência de sobrevivência do capital busca continuadamente alternativas que preservem a sua metabólica necessidade de realização de lucros, mesmo quando o fluido propulsor da engrenagem é o sangue humano (Marx, 1983).

O planeta dá reiteradas demonstrações do seu depauperamento ambiental. A questão não é mais se buscarem novas formas de energia, mas precipuamente se construirem novas relações sociais, nas quais o consumo exacerbado não seja o fio condutor das sociabilizações. Têm-se, pois, sob a névoa, por conseguinte, relevantes tarefas pedagógicas e políticas que haverão de arrebatar das mãos monetárias do mercado o timão do desenvolvimento social.

*Artigo também publicado no site da Universidade Federal de Sergipe (UFS)
**Doutor em Ciências Sociais/Unicamp, professor voluntário do Departamento de Serviço Social/UFS. (fredericoromao@uol.com.br)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Entrevista com o físico Olival Freire Jr


Ele foi recentemente nomeado para coordenar a 
Secretaria do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia.

Freire fala sobre o importante cargo que assume no governo, da construção de usinas nucleares no Brasil, cultura e desenvolvimento científico e tecnológico para combate à desigualdade social.

Ciencult - O que o levou a estudar física e como foi seu primeiro contato com ela?

Freire Jr. - É uma boa pergunta. No meu segundo grau sempre gostei de matemática. Era bom aluno em matemática e me abria propensão para engenharia, que na época era uma das carreiras mais valorizadas. Então fiz o vestibular para engenharia elétrica na Ufba e cursei um ano e meio nessa área e só depois que mudei para a física. No início, a física não me atraia, o que me levou a ela foram dois fatores circunstanciais: primeiro, minha atração pelas ciências exatas e o outro, ligado a um professor que ainda atua aqui na Ufba: Benedito Pepe. Ele dava um curso, hoje padrão pela Federal, de quatro semestres, mas na época ocupava só dois semestres. E apesar disso, ele dava o curso de física geral, claro que de maneira não muito aprofundada, mas conseguia cobrir toda a parte da física clássica, dedicando mais atenção à parte da física moderna, atômica; noções de mecânica quântica, relatividade, eu ficava encantado com as aulas do Pepe. Ele dava aula a uns quatro ou cinco contados, porque, evidentemente o resto da turma ia embora, alguns da física, outros da engenharia. Fiquei encantado com essa visão, a da física, dos fenômenos físicos, mesmo com a parte da física clássica, eletricidade, magnetismo, o Pepe apresentava de maneira cativante.

Ciencult - Em sua opinião, quais são os grandes nomes da ciência baiana e por que não são conhecidos pelo grande público?

Freire Jr. - É uma boa questão, porque temos pesquisadores aqui na Bahia de certa projeção. Na escola de medicina, que foi liderada pelo professor Zilton Andrade. Essa escola formou os seus descendentes, Manoel e Aldina Barral, são pesquisadores de larga projeção. Na área de saúde coletiva, nós temos aqui o pesquisador Mauricio Barreiro. Aqui no Instituto de Física, o professor Antônio Ferreira, que trabalha com nanotecnologia, uma pessoa de vastíssimo conhecimento. Em geral, o público não conhece os cientistas do Brasil, mas eu acho que aqui na Bahia temos uma agravante, uma tradição cultural no estado que valoriza pouco a ciência.

Ciencult - Essa desvalorização pode ser atribuída à tradição que a Bahia tem nas artes?

Freire Jr. - Exatamente. Às artes e à literatura. Lembro que há dez, doze anos... Vou te contar uma pequena história? Estávamos preparando um trabalho sobre as indicações que o Carlos chagas havia recebido para o Nobel, ele havia recebido duas indicações ao premio. E a outra pesquisadora da Fiocruz, a Marilia, que estava comigo, descobriu que uma das indicações que Chagas recebeu partiu do medico baiano Pirajá da Silva. Ela me sugeriu que investigasse a vida desse pesquisador baiano, quando comecei fiquei absolutamente encantado com a história dele. Pirajá foi o homem que desvendou uma dessas doenças tropicais, se não me engano a esquistossomose, foi professor da Faculdade de Medicina da Bahia, teve uma trajetória excepcional. Ele descobre essa doença, a divulga, viaja até a Inglaterra, e passa a ser conhecido como um dos descobridores dessa morbidade, e é nessa condição que ele recebe aqui na Bahia uma carta do comitê do Nobel, pedindo que indicasse um nome ao premio e aí ele recomenda Carlos Chagas. Preparada essa documentação, nosso artigo saiu publicado nas memórias da Fundação Oswaldo Cruz e aí, porque estou te contando toda essa história, vou te mostrar duas evidências dessa cultura. Uma vez contei toda essa historia para um reitor da Ufba, médico de formação, procurando sensibilizá-lo para o fato de que a Bahia precisava homenagear, dar mais destaque, não é que não tenha homenagem nenhuma, mas o reitor rapaz, que eu não vou dizer o nome, fez com que a informação entrasse por um ouvido e saísse pelo outro, mudou de assunto. Já com um veículo impresso, daqui da cidade, respeitado, que até dedica certo espaço à divulgação cientifica, aconteceu o seguinte: peguei um artigo sobre Pirajá da Silva, sobre o centenário do aniversario dele e mandei para lá e a resposta que obtive foi que o assunto não tinha o interesse popular. Certamente se fosse um artigo sobre um literato, ou coisa desse tipo, nos homenagearíamos mais esse personagem. Então, a minha impressão é essa: fazer ciência na Bahia é remar contra a maré. E essa cultura, em minha opinião, esta arraigada nas elites baianas. As elites baianas, tanto de esquerda, quanto de direita acham que a Bahia não é terra de ciência.

Ciencult - O senhor acredita que a imagem passada de uma Bahia de descanso e preguiça com o intuito de propagar uma imagem que reforce o turismo pode ajudar a oprimir o desenvolvimento da ciência no estado?

Freire Jr. - Não há conflito nisso. Certamente o turismo é uma atividade importante no estado, agora, acho que uma parte significativa do turismo que vem à Bahia, não tenho números pra lhe mostrar, não é só por causa do carnaval, das praias, aliás, a rigor, se alguém quer procurar boas praias no nordeste não venha aqui para Bahia, as praias de Alagoas são melhores. Muita gente que vem à Bahia vem pela historia dela. Agora, nessa historia da Bahia, mais de 500 anos moldados aqui, ciência é parte dessa historia. E quando apresentamos a Bahia apagamos essa parte. 

Ciencult - Como historiador de ciência, como o senhor vê esse esquecimento dado pela população, mídia, e até através do ensino básico de ciência nas escolas?

Freire Jr. - Posso falar um pouco sobre isso. Acho que estamos num fenômeno cultural que ainda não é completamente entendido por nós. O Brasil se orgulha pouco da sua historia. O Lula falou uma frase, dizendo que o Brasil está perdendo um pouco do complexo de vira lata, eu acho que essa frase, do hoje ex-presidente, condensou um problema que é complicado na historia do Brasil. Nós tivemos uma república que gerou uma idéia de a gente não se orgulhar do período imperial. Nessa época, a gente não se orgulha do período em que o Brasil era colônia.

Ciencult - Mas sabemos que a República Velha, por exemplo, foi uma extensão do período imperial. Boa parte das peças do governo republicano era oriunda das oligarquias constituídas durante o império.

Freire Jr. - Pois é. Mas chegamos aonde chegamos fruto dessa historia. Nenhum outro país faz cortes tão bruscos como a gente faz. Então eu acho uma grande dificuldade de valorizar a nossa historia e por tabela os componentes da historia da ciência fazem parte dessa historia.

Ciencult - O senhor acha que colocamos todos numa "bacia" só? 

Freire Jr. - Exatamente. Estávamos falando de Carlos chagas, ele é um homem da primeira república e se você acha que a primeira republica foi uma porcaria você generaliza e coloca tudo no bolo.

Ciencult - Este ano o senhor recebeu o convite do Ministério da Ciência e Tecnologia para coordenar a Secretaria do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia. Como se deu o convite.

Freire Jr. - Vários fatores influenciaram, um deles é o fato de conhecer o ministro Mercadante há bastante tempo. Tive militância política e sindical junto com ele na ampliação das entidades sindicais docentes no inicio dos anos de 1980. Depois estivemos juntos na primeira campanha do Lula em São Paulo na eleição de 1990, mas há bem 20 anos que não tinha contato com ele. Acho que para a escolha tenha pesado também recomendações político - partidárias e também, o fato de anteriormente, o ministério ser centrado no nordeste e agora se diz que o MCT virou um "paulistério", por ter muitos paulistas. Então ele entendeu que precisava ter um contrabalanço. Acho que também influenciou a minha trajetória acadêmica pelo fato de parte da minha pesquisa envolver parte da historia da ciência no Brasil. Não sei dizer se houve um fator decisivo, mas deve ter sido um mix de tudo isso.

Ciencult - Para que serve esse Conselho e qual foi a sua reação?

Freire Jr. - É um conselho grande, são quase 50 membros e serve para assessorar o Estado brasileiro na formulação da política de ciência e tecnologia e o acompanhamento da execução dessa política. E o meu trabalho em Brasília, aceitei de bom grado. Estou orgulhoso pela natureza do convite, mas também porque tenho uma confiança muito grande na capacidade do ex-senador e hoje ministro Aloísio Mercadante como político e liderança política.

Ciencult - Como é visto pelo senhor a nomeação de um político de carreira, como é o caso do atual ministro para assumir uma pasta tida como tão técnica e quais os desafios que deve enfrentar Mercadante?

Freire Jr. - Quando ele foi indicado, algumas vozes expressaram descontentamento, por estar saindo um cientista e entrando um político. E desde o começo eu tive uma atitude completamente diferente. A minha percepção é que se você tem uma boa liderança política à frente de um ministério técnico, a liderança vai saber se cercar de assessores que compreendam o aspecto técnico.

Ciencult - Então pela sua fala o momento é positivo para o ministério.

Freire Jr. - Em muito pouco tempo, há quatro semanas que estou trabalhando, estou muito animado. É um período de certas dificuldades porque o cenário econômico traz a necessidade de reajustes e cortes orçamentários então não é uma fase de total expansão da economia. Percebo que não é só a vontade do ministro, mas também do governo de ajustar a política estratégica deles para a manutenção de uma rota de crescimento e desenvolvimento econômico e com a compreensão que ciência, tecnologia e educação são essenciais para que o Brasil efetivamente enfrente esse desafio do desenvolvimento econômico. 

Ciencult - O senhor acha que para cada país existe um limite de crescimento considerando as características de cada um? Fala-se em crescimento sem levar em conta o efeito colateral disso. No caso do Brasil, considerado o "celeiro do mundo", talvez nunca possamos ser como os Estados Unidos, por exemplo, que é uma grande potência tecnológica, sem sofrer da escassez de recursos naturais?

Freire Jr. - Tento ser menos pessimista. Acho que as questões estão mais generalizadas do que podemos suspeitar. No caso específico do Brasil, pais em desenvolvimento, a grande dificuldade é essa: vamos frear o desenvolvimento à custa do bem estar da sociedade brasileira? Enquanto países já desenvolvidos mantêm um padrão de conforto bem maior do que o nosso à custa de um consumo maior de energia e um maior desgaste do meio ambiente? Então essa é uma escolha que não é trivial. Certamente, o país que está mais próximo desse dilema é a China. Eu acho que nessa conjuntura o Brasil está muito bem posicionado pelo fato de ter uma matriz energética que é menos danosa ao meio ambiente, é bem visto no cenário internacional, com a produção de energia por meio da biomassa e dispõe de um potencial hidroelétrico muito grande, então posso dizer que estamos numa posição relativamente privilegiada. O que temos que nos preocupar é como manter o desenvolvimento para combater as desigualdades sociais com sustentabilidade.

Ciencult - Recentemente foi matéria de capa da revista Veja a descoberta de cálculos até então secretos que levavam à construção de uma ogiva nuclear americana, a W-87. O descobridor foi o físico brasileiro Dalton Barroso, do Instituto Militar de Engenharia (IME). Ele publicou um livro com os cálculos o que motivou a vinda da Agência Internacional de Energia Atômica ao Brasil. A matéria insinuava a possibilidade de o Brasil ter capacidade técnica e intelectual de produzir o artefato, o senhor já soube de algo do tipo?

Freire Jr. - Infelizmente não li esse livro e não posso comentar o mesmo. Mas o que posso lhe dizer é situar um pouco o que nós temos certeza e o que é um terreno propício à especulação. O primeiro elemento que temos certeza é que, desde o período posterior ao regime militar, na época do governo Sarney, o Brasil e a Argentina, a comunidade cientifica brasileira, a Sociedade Brasileira de Física e a Sociedade de Física da Argentina tomaram iniciativas que levaram a uma atitude de extensão das suspeitas entre os dois países. Que um ou outro pudesse estar se preparando para a construção de uma bomba. As armas se forem usadas, são contra os vizinhos. Diz-se que a Índia se preparou com a bomba atômica com medo de que a China a atacasse. O Paquistão chegou à bomba atômica com medo que a Índia a atacasse. No Oriente Médio, Israel tem cerca de 100 ogivas nucleares, se tiver de lançar uma onde serão lançadas essas ogivas? Então quero dizer com isso é que America Latina é hoje uma região privilegiada, que não tem conflito que possa levar ao uso de armar atômicas e ainda existe um acordo entre diversos países deste continente que permite a inspeção mútua, de modo que Brasil e Argentina sabem o que cada um faz na área nuclear. Essa foi uma vitória dos governos Sarney e Alfonsín e das sociedades de física brasileira e Argentina a partir de 1985.

Ciencult - Mesmo com toda essa transparência ainda sofremos restrições ao nosso programa nuclear.

Freire Jr. - Apesar de estar autoevidente que o Brasil não tem nenhuma intenção de construir armamentos militares e ter uma situação geopolítica favorável continuamos sofrer restrições. Então o primeiro problema que queria chamar a atenção, é que parte das restrições aos armamentos atômicos deriva do fato que essa é uma tecnologia especial e que um pequeno clube de países detentores dessa tecnologia não querem cedê-la em hipótese alguma para nenhum outro país.

Ciencult - Apesar das atrocidades cometidas pela ditadura militar há quem diga que o período foi de grande desenvolvimento científico e tecnológico, isso é verdade?

Freire Jr. - No período do regime militar, como boa parte da nossa historia, ainda não está escrita, o acesso aos arquivos é difícil, muita documentação desapareceu, é um período que se presta a especulações. Entretanto, é importante dizer o que ganhamos com o desenvolvimento da ciência e que, nesse período, os militares apostaram no desenvolvimento da área nuclear. E o grande avanço que tivemos na área nuclear é o domínio do enriquecimento de urânio. Essa técnica foi dominada pela Marinha, num laboratório localizado em Aramar, região de Sorocaba em São Paulo. O líder científico e administrativo disso é o físico militar Oton Silva, em colaboração com entidades civis. O fato é que os militares tiveram papel importante no desenvolvimento da tecnologia nuclear.

Ciencult - Como é o processo de enriquecimento do urânio?

Freire Jr. - Há uma parte dessa tecnologia que é a de enriquecer o urânio. O urânio retirado da natureza não serve nem para ser colocado dentro de um reator nem mesmo numa bomba atômica. Enriquecer é um processo físico no qual você aumenta a presença de um determinado isótopo do urânio em detrimento do outro. O processo é muito delicado tecnologicamente e não pode ser por um processo de reação química usual e esse é um gargalo tecnológico. Esse gargalo o Brasil venceu e venceu graças ao projeto da Marinha. Algumas pessoas dizem que a marinha e o exercito brasileiro fizeram isso porque queriam chegar à bomba. O projeto de Othon Silva estava embutido em outro no qual a cúpula militar ou alguns setores militares queriam desenvolver o projeto ate chegar a uma bomba? Eu não digo que não, mas também não digo que sim, porque a partir do urânio enriquecido se pode tomar outra finalidade, a de gerar energia ou fins militares.

Ciencult - Estamos acompanhando os desastres causados pelo tsunami no Japão e as explosões nos reatores do Complexo Nuclear de Fukushima, ao norte de Tóquio. O acidente já está sendo comparado com Chernobil por estar no nível 6 numa escala de 7, que foi a classificada na Ucrânia. O governo pretende criar quatro usinas no país até 2030, uma delas está em disputa entre Pernambuco e Bahia. Há mesmo a necessidade dessas usinas no país, uma vez que dispomos de alternativas energéticas de menor risco?

Freire Jr. - Não sou um expert na área, mas pelo que estamos acompanhando pela imprensa e o que sabemos de Chernobil, está longe de ser parecido. O que deve acontecer agora é uma revisão em todos os padrões de segurança, como ocorre após acidentes aéreos. A aviação civil aprende com cada acidente, da mesma forma será com as usinas. Certamente teremos um debate e a revisão de todas as normas de segurança. O Japão não vai abrir mão da energia nuclear, já que 25 por cento de sua energia é oriunda das usinas. No Brasil existem especialistas que acham que não devemos utilizar a energia nuclear, o nosso percentual de uso da energia produzida nas usinas é pequeno, mas necessário para manter um percentual que, na minha opinião, deve se manter entre três e cinco por cento, o que é necessário para termos uma diversidade energética para o futuro. Além disso, a energia nuclear deve ser dominada em todas as suas facetas. A primeira é que o país se tornaria um grande enriquecedor de urânio e com isso pode entrar no mercado internacional para também enriquecer o urânio de outros países. Esse nicho de mercado é extremamente importante. Outro segmento é a medicina e agricultura. O Brasil hoje já não tem auto-suficiência em radiofármaco, equipamentos que utilizam a energia nuclear para tratamento e diagnostico de câncer. O investimento diminuiria a compra desses equipamentos do exterior.

Ciencult - Também é papel da Secretaria que o senhor faz parte apresentar projetos desse tipo ao governo para o setor energético?

Freire Jr. - Enquanto política para ciência e tecnologia sim. O Conselho debate o conjunto da política e não de financiar, que é o papel do Estado brasileiro por meio dos seus ministérios competentes. Opinamos e fiscalizamos a execução dessas políticas publicas. Aproveitando, já estamos com um projeto da construção de um reator multipropósito para a produção, por exemplo, de radiofármacos e não só de energia.

Ciencult - No caso da vinda de uma das usinas para a Bahia, o estado dispõe de mão de obra qualificada para o seu funcionamento?

Freire Jr. - Esse é um aspecto estratégico muito importante. Se o Brasil quer aumentar o numero de usinas nós teremos que formar muito mais técnicos numa escala muito maior do que temos hoje. Mas esse desafio de formar mais gente não é só da área nuclear, temos o pré -sal. Você acha que iremos poder explorar o pré-sal com o número de técnicos que dispomos atualmente no Brasil?

Ciencult - Gostaríamos de agradecer a entrevista e a disponibilidade dada pelo professor.

Freire Jr. - Eu que agradeço. Ficam meus parabéns a você e a Agência que estão fundando para promover a divulgação cientifica que eu acho extremamente importante. Quem sabe a Agência não contribua para quebrar essa tradição na Bahia de que ciência não é parte da cultura baiana? E aproveito para fazer uma ultima propaganda que pode nos ajudar nisso, está sendo criada a Academia de Ciência da Bahia, presidida pelo professor, ex - governador e ex-presidente do CNPq, Roberto Santos.

Atualmente Freire Jr. é Professor Associado II da Ufba e Pesquisador 1-C do CNPq na área de História da Ciência. Realizou estágios de pós-doutoramento na Université Paris 7 e na Harvard University e Estágio Senior no MIT. Em 2004 foi contemplado com uma Senior Fellowship do Dibner Institute for the History of Science and Technology, MIT, EUA. É ainda presidente da Sociedade Brasileira de História da Ciência - SBHC e 1º Vice-Presidente da Comissão para História da Física Moderna da União Internacional de História e Filosofia da Ciência. (Wagner Ferreira)

Fonte: Agência Ciência e Cultura

terça-feira, 29 de março de 2011

MP federal fará vistoria em usinas de Angra


Um dos objetivos da inspeção é verificar o plano de evacuação 
para os moradores em caso de emergência.

O procurador federal de Angra dos Reis, Ricardo Martins Baptista, vai visitar amanhã (30) as usinas operadas pela Eletronuclear no município. Ele deverá ser acompanhado por senadores da comissão externa que investiga o assunto no Senado. O objetivo do grupo é conhecer as instalações e os detalhes do plano de evacuação para um eventual acidente ou evento grave.

Conforme O Globo revelou, a empresa, que vai contratar uma consultoria externa para reavaliar a segurança em razão das encostas no entorno, estuda a construção de dois píeres nas imediações da central nuclear para atender a população da região e criar uma alternativa de fuga por mar em caso de emergência. Os constantes deslizamentos na Rodovia Rio-Santos preocupam especialistas. Após a crise desencadeada pelo terremoto com tsunami em Fukushima, no Japão, o Ministério Público federal pediu à Eletronuclear um relatório sobre o funcionamento dos reatores de Angra.

Ameaça - Os questionamentos em relação às rotas de fuga por terra podem levar o prefeito de Paraty, José Carlos Porto, a pedir à Justiça a paralisação das obras de Angra 3. Ele vai decidir se entra ou não com o recurso depois de um encontro que terá amanhã em Brasília com o presidente do Ibama, Curt Trennepohl.

Porto vai tentar liberar as obras de recuperação da estrada Paraty-Cunha, uma opção à Rio-Santos. As intervenções, avaliadas em R$ 60 milhões, já foram licitadas, mas ainda não tiveram início por causa de uma série de exigências feitas pelo Ibama. Desde os danos provocados por um temporal em 2009, a Paraty-Cunha está interditada.

Um dos principais entraves à concessão da licença de obras é uma polêmica em torno do tipo de revestimento mais adequado para as pistas. Inicialmente, as obras previam asfalto, mas o Ibama exige o uso de blocos intertravados, que melhorariam a drenagem no trecho, onde fica o Parque Nacional da Serra da Bocaina.

- Como vão autorizar o funcionamento de Angra 3 sem uma rota de fuga segura?, disse Porto. - O trecho da Rio-Santos em direção a São Paulo está muito precário, e voltar pela rodovia no sentido Rio seria inviável em caso de acidente, porque obrigaria a passar pelas usinas.

O subsecretário estadual de Projetos de Urbanismo (ligado à Secretaria de Obras), Vicente Loureiro, afirmou ontem (28) que já adaptou o projeto para utilizar blocos intertravados. Como considera que as outras exigências também já foram atendidas, ele acredita que as obras terão início ainda este ano. O Ibama fazia objeções ao funcionamento da estrada à noite e também queria cobrar taxa ambiental dos motoristas que passassem pela estrada. Loureiro vai hoje a Brasília tratar do assunto.

- Sobre a cobrança de taxa ambiental, alertamos que ela poderia ser economicamente inviável, porque a estimativa de fluxo de motoristas para a via não é grande, afirmou Loureiro.

O deputado Fernando Jordão (PMDB-RJ), que apresentou projeto de lei propondo royalties de 10% sobre o faturamento bruto das usinas de Angra, disse ontem que o plano de emergência para evacuação do complexo nuclear "tem falhas gritantes":
- A Rio-Santos é uma colcha de retalhos. É só esperar a próxima chuva, novos pontos críticos vão surgir. O governador Sérgio Cabral defendeu ontem a cobrança de royalties.

Em 2004, quando era senador, ele apresentou um projeto de lei sobre o assunto: - Esse é um projeto do qual me orgulho muito porque visa a dar, não só a Angra e às cidades vizinhas, mas também ao Estado do Rio, a possibilidade de ter instrumentos de reação e de preparação de contingência em relação à questão nuclear.

Presidente da Cnen deixa o cargo após denúncias

Em nota, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) informou que o presidente do
órgão, Odair Gonçalves, pediu ao ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, para deixar o cargo. A Cnen negou que a saída de Odair tenha ligação com o fato de Angra 2 funcionar sem licença permanente de operação. Mercadante, que participou ontem da abertura da Abinee Tec 2011, em São Paulo, disse que as mudanças no setor nuclear serão realizadas "no momento oportuno": - Vamos aguardar que as coisas sejam claramente definidas no Japão. Não há sentido em fazer mudanças em meio a uma crise dessa gravidade.

De acordo com Leonam Guimarães, assistente da presidência da Eletronuclear, quando
Angra 2 entrou em operação, foi assinado o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre MP, Ibama, Cnen e prefeitura de Angra, com uma série de compromissos, sem ligação direta com a segurança da usina, como manutenção de rodovias.

Em 2006, o Ibama, líder do processo, fez um parecer considerando que estavam cumpridas todas as exigências do termo e o encaminhou à Câmara do MP, que até hoje não se pronunciou.
Fonte: O Globo

Cnen nega matéria da Revista Isto é

A Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), nega peremptoriamente a íntegra da matéria veiculada à página 64 da revista Isto É, de 30/3/2011, e comunica que serão tomadas as providências legais cabíveis.

A Cnen repudia a notícia veiculada, onde servidores de carreira na Cnen, que dedicaram toda sua vida profissional à Instituição, assim como cientistas de renome, são atacados com base em informações que não correspondem à verdade, apontadas pelo Presidente da Cnen ao repórter, que optou por ignorar as informações dadas em favor daquelas com mais impacto e potencial de escândalo. A Cnen repudia ainda os apelos sexistas da reportagem.

O Presidente da Cnen, sem nenhuma relação com os fatos apontados, já havia solicitado sua substituição ao Ministro Mercadante, que, em função do acidente do Japão e do trabalho desempenhado, pediu que permanecesse por ora no cargo.

(Comissão Nacional de Energia Nuclear)